terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Relato Brevet 200 - Eduardo Bernhardt

Primeiro Brevet da Temporada 2015, num percurso inédito é uma ótima oportunidade para rever os amigos audaciosos, conhecer novas paisagens e se testar numa grande prova ciclística. Topei o desafio e já na preparação todo aquele companheirismo é exercitado em cada momento. Mal sabia eu que dessa vez iria precisar mesmo dos amigos (antigos e novos).
A festa é muito boa, já começa com o bate-papo animado da importante reunião técnica. Muitos faltam essa reunião e eu lhes digo: não sabem o que estão perdendo. De lá partimos para o Jantax numa excelente pizzaria na praça da cidade e é sempre muito bom recordar histórias, tirar fotos, papear de qualquer coisa. O espírito pré-audax é tão valioso quanto as conquistas que o randonneur acumula. Em se tratando de um evento esportivo colaborativo e não competitivo esse aspecto é muito potencializado.
Mas uma hora é preciso se concentrar, arrumar os equipamentos e dormir pois o dia é longo. Gostei muito do local da largada e de todo o apoio da cidade e da PRF. A jornada é longa e um bom começo é importante para não comprometer toda a pedalada. Devido ao frisson da largada de uma prova ciclística tratei de me concentrar no mantra que rege meus Brevets: pedale como um velho, chegue como um jovem. De novo eu nem imaginava o quanto esse detalhe iria me ajudar num futuro bem próximo.
Tudo corria bem com belas paisagens, pouco calor, estradas quase vazias, e eu seguia pedalando com vários amigos entre eles o Fernando e a Gabi, com quem dividi a estrada por mais tempo. Volta e meia cruzava com outros parceiros e é impressionante como temos a sensação de estar vivendo algo grandioso ao compartilhar da jornada de cada um, sejam conhecidos ou não.
E eis que o destino (sempre ele) me apresentar a uma experiência especial e até então única em 7 anos de audax: um grave problema mecânico. Entre o km 100 e 110, lá pela região de Rio das Flores meu pneu traseiro estourou, foi tão forte que ele saiu do aro. Procurei uma sombra com um plano claro na mente: trocar a câmara de ar e colocar um manchão (que eu não tinha). Não parecia tão ruim, o pneu tinha 3 furos, um maior e 2 pequenos nem na banda de rodagem. Fernando e Gabi passaram por mim e avisaram que parariam para comprar água. Improvisei um manchão com papelão, troquei a câmara e segui. Encontrei eles poucos quilômetros à frente, me hidratei e vi que o buraco maior tinha crescido demais. Decidimos colocar o pneu traseiro na frente, fazer novo manchão com um remendo grande de câmara de ar e continuar. Eu via o calombo passando enquanto pedalava. 
No PC 2, após almoçar, o Fernando me sugeriu colocar duas abraçadeiras plásticas para segurar por fora o rombo no pneu. Neutralizei o freio e continuei assim mesmo. Parei uma vez para ver o desgaste do plástico e me animei, pois parecia que aguentaria. Aí deixei rolar, não olhei mais.
No PC 3 o Beto, irmão do Fernando e voluntário, me cedeu mais abraçadeiras para fazer um reforço afinal faltavam 57 km! Só que elas eram curtas e foi preciso emendar uma na outra. Aí as emendas não passavam nas sapatas de freio... tirei as sapatas, claro.
Com esse remendo estava seguro que iria completar o Brevet com o pneu desse jeito mesmo e a cada km percorrido aumentava o sentimento de perseverança, importante para me garantir calma e tranquilidade caso a gambiarra se rompesse.
Só não me lembrei de encher mais o pneu traseiro, acabei pedalando quase 100 km com eles meio murchos com apenas 60 ou 70 libras das 100 libras possíveis. Na última perna esse esforço maior para girar foi cobrando o seu preço. Eu tinha reservas pois 'pedalava como um velho para chegar como um jovem'. E conclui a prova em 12 hs, muito mais emocionado que de costume, pois sabia que tinha vencido não só a distância, as subidas, o vento e o calor, mas também um péssimo comportamento que eu e muitas pessoas tem: o de desistir na primeira dificuldade um pouco maior.
De fato eu nunca pensei em desistir, apenas e como poderia resolver se os 'curativos' do meu pneu se rompessem, eram poucas opções, mas precisava ter algo meio pensado para chegar a tempo no final.

Pneu com a gambiarra e depois sem para dar ideia do tamanho do rasgo.

Tentei me manter num ritmo saudável, ainda assim o cansaço acumulado, o esforço de pedalar com pneus descalibrados e um erro na alimentação após o PC 3 me fizeram passar mal após a chegada e vomitei.
Mas logo comecei a melhorar e pude continuar desfrutando da sensação indescritível de concluir provas de longa distância, desta com a vez com a cereja do bolo de completar pedalando 100 km com um pneu rasgado sendo contido por uma gambiarra de abraçadeiras plásticas.

Não poderia deixar de agradecer a todos que me ajudaram ou compartilharam destes ótimos momentos comigo: Fernando, Nora, Gabi, Marcus, Beto, Guilherme, Thiago, Thaís, Nino, João, Otoch, Raquel, Cezar, Maguila, Sebastião, Manoel e todos que não foram citados aqui, mas que são muito importantes. Valeu galera!

Um comentário:

  1. Só uma pessoa como o audacioso e amigo Edu é capaz de nos presentear com um relato deste. Parabéns por mais esta conquista ��

    ResponderExcluir

Por favor escreva seu nome ao inserir comentário.