quinta-feira, 14 de março de 2013

Relato Marcelo Carnaval


Relato AUDAX 200 Rio das Ostras – Março 2013


A largada de um AUDAX é um capítulo à parte...


02/02/2013 - O ano de 2012 passou rápido. Foi um ano de muita atividade física. Participei do Desafio Vale das Princesas em Petrópolis e também do Audax 200 Urbano, no Rio de Janeiro, que não consegui concluir. Agora estou me preparando para o 200 de Rio das Ostras. Estou bastante otimista, pois trata-se de um percurso bastante conhecido, no qual estou acostumado a pedalar com os amigos. A altimetria é tranqüila e não há subidas íngremes. O percurso é todo de asfalto, embora alguns trechos em Macaé sejam de acostamentos com buracos. O grande inimigo deste percurso é o vento, mas aí não tem jeito. O negócio é por para girar em marcha baixa e ter paciência. Eu mesmo já peguei um vento contra, quando voltava de Quissamã para Macaé, durante 64 km. Haja paciência... Em compensação, quando estamos a favor, o vento nos empurra com força e dá para aproveitar e melhorar a média horária. Compensa um pouco. Mas o ideal é que não haja vento, para a gente poder curtir a pedalada.



15/02/2013 - Como sempre acontece, já começo a sentir ansiedade pela expectativa de participar. Ainda mais que vou estar em casa. Ainda estava em dúvida com qual bike eu iria. A 29er, que tem um ótimo desempenho e é mais resistente a furos de pneu; ou a speed-híbrida, que é mais leve e veloz, mas que tem maior chance de furar pneu. O fato da prova ser de dia já é uma vantagem, pois podemos ver bem o percurso e tomar mais cuidado com os buracos. Escolhi a híbrida. Substitui o selim por um mais largo, pois em meu último treino de 100 km o sentador sofreu bastante. Então, como resumo dos preparativos devo levar:

  • Mochila de hidratação com 2 litros de isotônico caseiro ou água de coco.
  • Ferramentas básicas
  • Bomba manual
  • Kit para remendos
  • 3 câmeras reservas
  • 1 pneu reserva
  • Power-gel
  • Bisnaguinhas com queijo branco e também com Nutela
  • Barras de proteína
  • Caramanhola com 0,5 L de guaravita
  • Bananas
  • 1 medida para preparo do MG 4400 após os primeiros 100 km.

A estratégia é ganhar o máximo de tempo possível na ida, quando estamos descansados e não costuma haver vento, para poder voltar tranqüilo. Além disso, de manhã cedinho o sol e o calor são mais amenos. Também não espero gastar muito tempo nos PCs. Carimbar o passaporte, fazer um alongamento breve, comer alguma coisa, hidratar, e só.
            Outra novidade é que Martha se animou para fazer o desafio 60 km. Embora ainda seja incerto, pois o número de ciclistas inscritos no Desafio 60 precisa ser de, pelo menos, 20 pessoas e esse número ainda não foi alcançado. De qualquer forma, vamos treinando...

28/02/2013 - Ansiedade total. o número de inscritos no Brevet 200 k  já passa de 140. Para o Desafio 60 km há umas 20 pessoas. e mais a turma do Desafio 100. Certamente que até o próximo sábado este número tende a aumentar. O tempo, que estava muito quente, deu uma arrefecida, com chuvas nos últimos dois dias, o que fez cair a temperatura. Ótimo. Outra boa novidade é que a organização alterou o horário da largada para as 7:00 horas. Assim, saindo mais cedo, não sofremos tanto com o sol (se houver).
Sábado passado fiz meu último treino, de 160 km, indo até Quissamã. Estou bastante familiarizado com o percurso. Achei que a bike hibrida está com um ótimo desempenho, o que me permitirá uma boa média horária. Esta semana aumentei a ingestão de carboidratos e proteínas. Até comprei um complemento (Mass Gainer 4400 – Nutrilatina) para melhorar a recuperação muscular. Também iniciei a utilização de creatina monohidratada (Universal), que vai me ajudar na musculação. Na verdade, quero aprender e melhorar a nutrição para poder perseguir a série (300, 400 e 600). É ponto pacífico: sem combustível o motor não funciona. Uma boa hidratação e uma alimentação correta durante as provas longas fazem toda a diferença! Agora é aguardar. Até o próximo relato.

04/03/2013 – Finalmente a dia chegou. Tudo conferido, na véspera resolvi trocar os pneus da bike. Procurei os famosos Schwalbe Maraton, pneus alemães top de linha e que são ati-furos, mas não encontrei. Como os meus Kenda estavam já bastante deformados e com rachaduras, foram substituídos por um par de GTS 700x23. Preferi não usar a pressão máxima (110 lbf) para não quicar muito. Usei 80 lbs na frente e 90 atrás.
No sábado à tarde fomos para a reunião técnica e aproveitamos para deixar duas bicicletas na casa de um amigo, que moro bem pertinho da largada. A reunião estava bastante concorrida, com muita gente e muitos novatos que faziam seu primeiro AUDAX. A organização foi ótima e tudo foi bastante divertido e instrutivo. Pegamos os kits com os numerais e fomos para casa tentar dormir. Acordamos às 05:00 h. Eu, minha esposa Martha e o futuro genro, Wagner, que também faria o Desafio 60 usando minha 29er. Preparei meu isotônico caseiro (suco de 1 laranja, 2 limões, 2 colheres de sopa de açúcar e uma colher de chá de sal em 2 litros de água). Tomamos um café da manhã reforçado, sem exageros e partimos para Rio das Ostras. O dia estava bonito, uma bela manhã de domingo, com o sol sendo filtrado pelas muitas nuvens. Até esperávamos uma chuvinha à tarde, que seria bem vinda para refrescar. Fizemos a vistoria e alinhamos para a largada. Eram em torno de 200 ciclistas com suas roupas coloridas e muita, mas muita animação mesmo. A largada de um AUDAX é sempre um capítulo à parte. Vemos todos os tipos de bicicletas e todos os tipos de ciclistas. Importadas, nacionais, bikes de carbono supermodernas, outras simples, mas que garantem a mesma diversão. Minha impressão é que a cada ano o número de reclinadas aumenta. Enfim, curtimos a expectativa tirando algumas fotos e filmando. Até que a largada foi anunciada. Partimos em comboio pela bela orla de Rio das Ostras com o carro da Guarda Municipal à frente e uma ambulância atrás. No meio 200 audaxiosos. Uns iriam fazer 60 km, outros 100 km e outros tentar o brevet 200 km. Muito cuidado, pois uma queda leva dezenas para o chão. Logo no início um conhecido embolou com outra bike e o câmbio do amigo da frente entrou na roda dianteira dele. O resultado foram 8 raios quebrados e uma roda empenada. Mas isso não foi suficiente para tira-lo da prova. O cara continuou por mais 80 km até substituir a roda danificada.

Marcelo Carnaval e Martha: ele completou os 200, ela os 60

Passamos pelo centro da cidade com todos os sinais liberados pela Guarda. Beleza. Fomos num ritmo tranqüilo, pois eu estava acompanhando a Martha para incentivá-la. Chegaram as primeiras subidas da Estrada Serra Mar. Martha apanhou um pouco, mas conseguiu vencê-las. Depois da segunda subida eu avisei que iria adiantar, pois não podia me atrasar muito (eu estava mirando o Brevet...). Dali para a frente Marcos e Wagner ficariam responsáveis por cuidar da Martha. Deis uma acelerada e fui ultrapassando vários grupos de ciclistas. Entrei na Estrada de Canta Galo, que é linda, bastante arborizada e minha velha conhecida. Cheguei rápido ao primeiro Posto de controle, mas a fila para carimbar o passaporte estava grande. Enquanto aguardava tive a alegria de ver a chegada da Martha, Marcos e Wagner, Fiquei muito feliz e orgulhoso, pois via que a mulher está tomando gosto pelo ciclismo. Carimbei o passaporte e pus o pé na estrada, agora em direção a Macaé. O sol já estava um pouco forte, anunciando que à tarde iria fritar os ciclistas. uns 15 minutos depois percebi que o pneu dianteiro estava murchando. Putz!! Controlei a raiva e substituí a câmera por uma nova. É claro que fui ultrapassado por vários grupos, mas tudo bem. Vamos à luta. Aumentei de novo o ritmo e novamente ultrapassei vários grupos. Chegamos a Macaé, entramos na Linha verde, onde, no final, havia o PC-2. Já estava bastante calor. Comprei uma água mineral com gás super gelada. Carimbei o passaporte, alongamento e parti em direção a Carapebus. Fui num ritmo bom, pois a híbrida, uma speed com guidão de MTB e relação mais curta, é bastante leve e veloz. Até que peguei um trem com duas 29. Fui aproveitando o vácuo por uns 10 km, mas o ritmo estava muito forte e resolvi não forçar. Precisava guardar energia para a volta. No caminho para o PC-3 já comecei consumir barra de proteína e um Power-gel. I isotônico da mochila também já estava acabando. Cheguei cansado a Carapebus. Dores no pescoço e nas mãos. Hidratei, comi uma maça, abasteci a Camel-back com água e várias pedras de gelo, o que foi ótimo! Fui no banheiro fazer  xixi e parti para o PC-4 – Quissamã. O sol estava escaldando. Os grupos já haviam dispersado e agora pedalava sozinho. De vez em quando passava por alguém ou era ultrapassado. Mantive meu ritmo. Encontrei um colega que toda hora, depois de me ultrapassar, parava numa sobra, no mato. Eu pensei – “Será que o cara está com dor de barriga?” Não, era câimbra mesmo. Quando chegou a Quissamã teve de tomar banho deitado, até conseguir se recuperar! Quando cheguei a Quissamã o velocímetro já marcava uns 110 km. Meu isotônico já havia acabado, bem como a barra de proteína. Ainda tinha um Power-gel. Abasteci a mochila de hidratação com água e muitas pedras de gelo. Comi um macarronada, oferecida pela organização, e sentei com as pernas para cima, numa cadeira. Resolvi que não demoraria, pois quando o corpo esfria é pior. Tomei uma “banho-tcheco”, lavei a cabeça e o rosto e parti para Carapebus. Agora faltavam “só” 100 km. Para alegria geral da nação o vento estava a favor e, embora não muito forte, nos empurrava. A uns 15 km mais à frente cruzei com um ciclista pedindo ajuda. Como não parar para ajudar? O cara, além de não ter as ferramentas necessárias, não sabia trocar o pneu. Pode?! Tudo bem... Gastamos uns 15 minutos. Partimos de novo. A essas alturas já sentia câimbras na parte superior da coxa. Senti falta das tradicionais bisnaguinhas (esqueci!) que costumo comer entre um PC e outro. Mas tudo bem. Estava controlando tempo e, volta e meia, fazia as contas da média necessária para completar a tempo. Estava com folga. Em Carapebus não gastei mais que 15 minutos. Sentei para alongar e passei uma pomada de arnica nas duas coxas. Peguei 3 bananas para comer no caminho e fui em direção a Macaé e Canta Galo. 16 km depois, antes de chegar ao trevo de Cabiúnas, na última subida deste trecho, mais câimbras fortes. Mesmo reduzindo todas as marchas, senti que precisaria parar e alongar. Aí deparei com um colega de pneu furado. Foi minha deixa. Até porque, mais uma vez o cara estava enrolado e não conseguia trocar o pneu. Acho que estava sem óculos ou ficou nervoso, sei lá. Rapidamente ajudei, substituindo a câmara e instalando a roda. Quando chegou outro amigo para ajudar e parti. Cheguei a Macaé com o sol quase se pondo e me pegando de frente. Já estava muito cansado e sentido falta de comer algo salgado. Ao mesmo tempo me dei conta de que não tinha mais dinheiro. Também não queria parar, com medo de perder tempo. Fui girando solitário em direção ao último PC, em Canta Galo. Desde que saí de Carapebus, resolvi quebrar a monotonia e pus um louvor para tocar no celular. Isso me deu um ânimo novo. Pedalar sozinho tem dessas coisas. Eyshla, Vencedores por Cristo, etc. E lá vamos nós. Sofremos para vencer p pequeno trecho dos Cavaleiros até a entrada de Canta Galo. Acostamento ruim, buracos e muitos perigos para os ciclistas. E eu orando para que não tivesse mais nenhum pneu furado... Um pouco antes do PC de Canta Galo ( uns 180 km) eu já não estava bem. Mal estar, vontade de vomitar fraqueza total. Pensei que não fosse conseguir. Não tinha mais nenhum suprimento. Parei no PC e fui recebido pela simpatia de uma menina que esqueci o nome. Não conseguia comer nem beber nada. Peguei a água e derramei na cabeça, no peito nas costas. Sentei e comecei a melhorar. Bebi água. tentei comer um amendoim salgado, mas não desceu. Aí fui até um BR próximo e consegui uns saches de sal. Foi tiro e queda. Melhorei na hora. Agora faltavam somente 17 km. Já estava escurecendo. Como eu conheço bem o trajeto, sabia que teria somente 2 subidas e depois ser só relaxar rumo À chegada. Escuridão total, farolzinho de led que não iluminava nada e louvor dos Vencedores por Cristo tocando. Apesar do cansaço do corpo, a alma estava regozijando de alegria. Pedalei os últimos 10 km orando, agradecendo a Deus porque a Martha e Wagner conseguiram concluir o Desafio 60, louvando ao SENHOR pelo dom da vida e pela saúde. Cheguei às 19:16 h, depois de 11 horas e 46 minutos.
Como todos sabem, AUDAX não tem pódio e nem vencedores, mas eu venci: venci o cansaço, as dores, o temor de não conseguir, superei a mim mesmo e às minhas próprias limitações. No AUDAX a gente aprende a ter disciplina para treinar, perseguir objetivos, perseverança; a gente toma consciência de nosso próprio corpo e, muito importante, começa a compreender o resultado e a ação dos alimentos que ingerimos.
Valeu!
Agora e pedalar, pedalar e pedalar.
Que venha o 300.



Agitação para fazer vistoria em 200 bicicletas


Wagner (futuro genro) e Martha: Desafio 60 km

3 comentários:

  1. Putz, Carnaval, que relato emocionante!

    Eu vinha treinando bastante para esse Audax, mas a falta de suporte familiar e alguma confusão intestinal me avisaram que ainda não dava. Minha frustração foi tamanha que fiquei bastante irritado por uma semana.

    Eu quero estar aí com vocês! Mas já treino para o 200 em junho e, ano que vem, minha meta é a série completa!

    Abraços fraternais, meu caro. Tudo de bom para essa família bonita!

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    Respostas
    1. Valeu Marconi,
      Procuramos você entre os dezenas de ciclistas. Depois, verificando o site, vi que você não largou. Foi uma pena. Mas em junho a gente vai pedalar junto de novo.

      Abs,

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  2. Pessoal, a foto lá em cima não é do Carnaval, é do Wagner e Martha (mulher do Carnaval), que fizeram o Desafio 60 km.

    Só pra esclarecer...

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