quarta-feira, 6 de julho de 2011

Relato Brevet 600 - Pedro Zöhrer

Pedro Zöhrer queimando o asfalto no Brevet 400.

Ainda estou me recuperando do Audax da semana passada, mas vou dar um pequeno depoimento. (texto longo).
Pela primeira vez desde que comecei em 2003 a praticar esta ultra maratona ciclistica chamada no Brasil de Audax, resolvi fazer a série toda. Normalmente fazia apenas os 200km , 300km e uma vez em Campinas fiz os 400km, este último sem terminar.
O Cézar, outro apaixonado pelas provas de resistência como o Audax, quase sempre completava a série toda (acho que é não só o reclineiro com mais km de Audax como um dos ciclistas brasileiros com mais kms em Audax).
Foram 46 incritos e 3 reclineiros (Cezar, Ricardo e Eu). Destes, 30 brevetaram.
O Cézar em sua Zöhrer Racer Low, fez a prova não para brevetar, pois ele já havia brevetado no início do ano no sul seus 600km para participar do PARIS-BREST-PARIS. Ele disse seria mais um treino e para dar força aos outros dois estreantes de 600km Ricardo e eu.
Sempre que pedalei com o Cezar em um Audax nossos ritmos não batiam, eu sempre começo correndo muito e vou perdendo o gás até o final, ele justamente o contrário.
Na última prova antes do 600km, a de 400km, chegei nos 2 primeiros Pcs, antes deles abrirem, e mesmo assim sobrava no final gás para correr do último Pc até a chegada com médias de 28km/h.
Prometi a mim mesmo ouvir os colegas, incluindo o Cézar, e começar mais lento e aumentar gradativamente até achar um média confortável. Para minha surpresa, foi o Cezar que desta vez resolveu voar baixo e chegar em vários Pcs antes de sua abertura, tudo isso como um banco que logo no início se mostrava frouxo faltando uma fixação da base do acento. (nunca participe de um AUDAX SEM TER REVISADO TUDO!).
Nosso super estreante o Ricardo Michel, (primeira vez fazendo toda a série e com poucos kms de reclinada, uns 10.000) começou muito bem com sua EXD 26x26, mas estava já algum tempo reclamando da dor em um dos joelhos provocado por um dos exercícios das sessões de musculação.Mas não foi isso que o deteve, mas sim um novo para-lama.


Pedro e Ricardo antes da largada do 400.

Melhor explicando, tendo estudado a prova e suas variáveis, ele percebeu consultando as previsões meteorológicas, da possibilidade de chuva durante a prova, e sabendo de como um bom par de para-lamas poderia influir nessas condições, ele instalou quase que no dia anterior os mesmos.O que seria uma ótima ação frente ao cenário futuro, se mostrou um grande problema, pois apesar da instalação dos mesmos ter sido bem executada, durante a prova o banco corria para trás nas subidas,apertando o para-lama contra o pneu e tornando a subida e as pedaladas fortes uma penúria de desgaste.Curiosamente nas descidas e no plano tudo parecia ok, pois o banco corria para frente tirando a pressão sobre o para-lama, mas até nosso herói descobrir o que estava acontecendo, muito desgaste físico aconteceu, e na altura dos 300km ele já estava totalmente esgotado e acabou desistindo.
No meu caso tudo estava correndo bem, estava mantendo médias confortáveis de 23km/h, até que aos 30km começou minha penitência com o primeiro de um total de 11 pneus furados. O primeiro aconteceu ainda a noite, e trocar pneu segurando uma lanterna com a boca não é das tarefas mais agradáveis. Mas como estamos em uma prova de Audax sempre aparecem almas amigas para te ajudar nessas situações, no caso foi o Maicon um amigo já de provas passadas que sempre para ajudar quem precisa. Naturalmente, que para voltar a média proposta tinha que depois forçar um pouco, para que sobre tempo não só para as eventualidades como para dormir e comer.Mas imaginem fazer isso por mais 8 vezes antes de completar 400km. Curioso, que como muitos grupos me passavam enquanto trocava os pneus, e me viam depois ultrapassa-los as pessoas pararam de me oferecer ajuda, passando a falar, nós já vamos seguindo pois sabemos que daqui a pouco vc nos alcançará (fama maldita de quem corre muito de reclinada) mas nem por isso o espírito do Audax se foi, sempre alguem parava para oferecer ajuda, eu aceitei toda ajuda possível, ainda mais que não tinha mais camaras reserva a serem usadas (em geral levo duas) nem remendos (chegei a pedalar com camaras remendadas mais de 2x).
Em Quisamã tinha avisado com antecedência minha esposa para encontrar e comprar mais camaras e reparos, mas ela só achou uma camara que servia e isso com muita dificuldade. Para piorar meu pneu traseiro também estava vencido, mas para ele tinha um reserva no PC de Quisamã.Ao chegar em Quisamã exausto após 9 pneus furados resolvi comer um pouco e dormir para ver se recuperava minhas forças. Depois do descanso mãos a obra para trocar o pneu, verificar das 5 camaras remendadas qual poderia ainda ser usada e seguir em frente. Alguns ciclistas que já haviam desistido me ajudaram prontamente, mas acreditem com a bike parada conseguimos furar mais duas vezes. Não querendo desistir, apelamos para tudo e uma solução cogitada foi a troca completa das rodas dianteira e traseira por de outra bike, nesta hora chega nosso amigo reclineiro Ricardo que veio de ônibus do outro Pc. Como as rodas oferecidas pelos colegas do Audax não cabiam por serem para freio a disco acabamos usando as rodas do Ricardo que usavam pneus Schwalbe Marathon (os pneus infuráveis).

Mutirão solidário no PC 4 (Quissamã) para colocar o Pedro de volta na prova. No total 5 atletas se dedicaram à ajudá-lo só nesse PC.

Acabei saindo com o Luis Fernando e o Eduardo para Macaé e depois Rio das Ostras com o tempo no limite. Depois de Macaé, falei com o Eduardo e o Luiz e disse para eles seguirem sem mim, estava tão fraco e cansado que a mais leve subida era extenuante, de Macaé segui para Rio das Ostras em uma via alternativa mais plana e curta. Ao chegar em Rio das Ostras pude ver no PC vários ciclistas deitados no frio recuperando suas forças para os últimos 200km, muitos acharam que eu continuaria mas expliquei que apesar de ter chegado ainda com o PC aberto, havia cortado caminho pois estava muito cansado.
Trinta minutos depois chegavam o Eduardo e o Luiz, que não iriam mais continuar. O Cezar desistiu nesse PC 5 horas antes com dores no joelho provocado pelo banco torto e ritmo puxado.
Ano que vem tento de novo, agora mais sábio,humilde e grato a todos que colaboraram nesse Audax e em tantos outros pelo país.


As dores se vão ficam as amizades.

Algumas amizades do 600. Da esquerda pra direita: Leandro Pestana, Ricardo, Leandro da Rocha, Edu, Pedro, Sebastião, Renato, Maicon, Luiz Fernando e Cláudio Guilherme.

2 comentários:

  1. Estavamos quase montando outra bike ali para voce continuar!!!

    Abraços
    Christian Sens

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  2. Parabéns pela persistência, eu passei por algo parecido no Audax 400 Campinas 2010. Na ocasião, usei pneus 700x20 (ou não sei se eram 700x23), a questão é que furou 8 vezes, acabando os remendos, e ao contrário da solidariedade dos atletas fluminenses, ninguem se prontificou a ajudar, e tive que me virar até o último fôlego, desistindo no km 230 na rodovia totalmente escura de Campinas, com imensos caminhões tirando fina! Abraços, e que esta persistência sempre exista em nós atletas, pois no fundo, temos que estar preparados para muitos contratempos!

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