quarta-feira, 13 de julho de 2011

Relato Brevet 600 - Ennio de Oliveira

E aí, galera Audax? Todos bem? Relato aqui como vi 600km rolarem por baixo das rodas da minha bike. Espero que curtam. Abração!
Na largada da esquerda pra direita os amigos Marcos, Edson, Maurício e eu.

Calculei pela 6ª vez os mantimentos que deveria levar na prova dos 600K. Achava que levava um pouco mais do que precisaria, mas temia reduzir e depois sentir falta. Lá estava uma mochila com cerca de 8kg, incluindo 4 sanduíches de polenguinho e mel, 5 porções em pó de complemento alimentar (MassGainer 4400) separadas em sacos plásticos para rápida dosagem durante a prova, outras 6 porções em pó de isotônico (Endurox R4) também em sacos, 4 barras de proteína (Solo e Endurance), 9 sachês de gel energético (GU c/ cafeína, já que seriam 2 noites), fora os 2L de água que iam no camelo. Desisti de levar o casaco e capa de chuva confiando na previsão do tempo. Na bolsa frontal iam o protetor solar fator 50, hipoglós, celular, 10 reais, e 3 comprimidos antiinflamatório.  Caraca, tá pesado! – pensei. Tomei um comprimido antiinflamatório.    É!.. Vamos nessa!
A reunião técnica devia estar rolando já há 15 minutos. A ideia de dormir antes da prova tinha ido pro buraco logo cedo quando saí tarde do trabalho chegando só às 18:00 horas na pousada. Jantei logo lá mesmo e fui me aprontar com minha mochila. Minha esperança era poder deixar parte da carga no posto da largada de Rio das Ostras, já que retornaríamos para lá nos 400km (PC5), partindo depois para os 200K finais. Peguei a reunião em seus 15 minutos finais, logo antes da apresentação dos ciclistas que vinham do sul e das últimas garfadas que o Felipe “Fininho” dava no seu prato de macarrão. Lá estava a galera audaciosa. Um número considerável de atletas (cerca de 40), considerando que este era o primeiro 600km realizado pelo Audax Rio. Muito bom participar com essa turma.
A largada seria dada em poucos minutos e todos estávamos contidamente tensos e ansiosos pelo que nos aguardava as próximas 40 horas que teríamos pela frente. Eu iria usar minha nova bicicleta, uma speed Specialized, substituindo minha aposentada híbrida (uma Alfameq com pintura nas cores do Brasil) que havia usado nas 3 provas anteriores. Tendo treinado todo o mês que antecedeu a prova com ela, me sentia seguro e adaptado para a aventura. Por conta dos shows de jazz e blues que enchiam as ruas de Rio das Ostras, saímos pouco depois das 22 horas seguindo devagar pela ciclovia. Estava posicionado mais ou menos no meio da longa fila de olho no Marcos e Edson para acompanhá-los pois sabia, pelas duas últimas provas, que tinham um ritmo similar ao meu e pretendia seguir com eles. Logo após a ponte estaiada vi o Marcos avisar o Edson pra acelerar e chegar no grupo da frente para não ficar muito atrás. Acelerei e fui pegar a rabeira do pelotão que seguia na frente no caminho para Barra de São João. Já no retorno, pensei até que o grupo tinha seguido errado não virando logo no trevo da estrada Serra Mar, pois não aparecia nenhum outro ciclista. Somente depois de um longo trecho apareceu o segundo grupo com o Edson e Marcos nele. Como estava distante e seguindo num ritmo bom, resolvi continuar com o grupo da frente numa média de 32km/h até o primeiro PC em Macaé. Aguardamos o PC abrir, duas bananas, um guará vita, partiu!
No início do trecho até Quissamã (PC2), logo se houve o som de pneu furado e um ficou pra trás. Pouco depois, um buraco raso se mostra afiado, e Fininho (que estava logo a minha frente) e o ciclista anterior a ele furam o pneu ao mesmo tempo. Desviei por milímetros. Do grupo inicial, seguiam agora somente eu, Nei e o Leandro, ciclista de Curitiba muito bom – dava a impressão que ele não ia mais rápido só pra não ficar sozinho, o que era bom pra mim, pois tenho certeza que o Nei ia acompanhar e eu é que acabaria sozinho. Chegamos bem em Quissamã (02 da madruga), comi um pouquinho da macarronada para esquentar o estômago, uma porção do mass-gainer, abasteci água e isotônico e seguimos para o próximo PC a 100 km dali.
Logo na saída encontramos com a chuva, depois vento, uns dois cachorros correndo atrás pra incentivar e os buracos já esperados na metade deste trecho. Paramos em dois momentos para confirmar o caminho certo e, principalmente, não cometer o mesmo erro dos 400K, passando reto na entrada para Mineiros no caminho de volta. Chegamos ao PC3, Farol de S. Tomé, um pouco depois das 6 horas. Já não era sem tempo! 200km são 200 quilômetros, e não tem jeito, o cansaço sempre aparece. Além da fome. Comi dois sanduiches, uma barra de proteína, mais uma porção do suplemento alimentar, bananas... e fui aliviar o peso morto no banheiro da rodoviária. Quando voltei o Nei e o Leandro já estavam prontos para partir. Vamos nessa!
Eu, Nei e Leandro cruzando com o Ivan entre os PC's 3 e 4 - Foto Vídeo dos Megariders.

A luz do dia era bem vinda, dando visão do espaço ao redor e a passarada em revoadas. Cruzamos com o primeiro ciclista, era o Ivan Rolim pedalando sozinho. Acenamos e demos gritos de incentivo mútuo. Depois outros também em pedalada solo e mais adiante vários pequenos grupos para finalmente os mais atrás pedalando também solo. Antes de chegar a Barra do Furado meu joelho direito começou a incomodar, o que era bem preocupante pois ainda não tinha chegado nem na metade da prova e esse tipo de dor costuma aumentar rapidamente. A incerteza agora de poder continuar na prova me deixou triste. Pedi ao meu anjo da guarda, à Deus para que impedisse a dor de crescer. Meu ritmo diminuiu e seguia atrás tentando acompanhar o Nei e Leandro, as pontadas de dor a cada pedalada, tentando variar a forma de pedalar, passando a puxar o pedal mais que empurrar. Para minha sorte, meus companheiros diminuíram também o ritmo e pude ficar por perto até chegarmos finalmente em Quissamã (PC4 – 300km). Alonguei, reabasteci, comi dois pratos de macarronada com uma coca-cola, frutas e tomei o segundo comprimido antiinflamatório. Passei protetor solar e depois de um tempo descansando, partimos devagar para reaquecer novamente depois dessa parada mais longa, a caminho do PC5 – km 400 – em Rio das Ostras. Na minha cabeça, a apreensão: “Vai joelhinho, não me deixa na mão!”  Os 100km a seguir com as subidinhas da estrada parque e retorno decretariam se eu continuaria na prova ou não.
            Desde o início dos 300km, em minha mente eu ia pondo submetas ao longo do caminho entre os PC’s. Isso ajudava psicologicamente e criava incentivo a cada submeta vencida. “Entrada para Carapebus, vamos até lá.” Esse trecho foi numa levada tranqüila, meu joelho doendo muito no início e depois diminuindo aos poucos conforme se reaquecia. “Agora rumo aos trilhos, eu quero ver os trilhos!” Para minha felicidade, o milagre se deu. Meu joelho não aumentava a dor como esperado, e até diminuiu bem (apesar de nunca ter sumido por completo) permitindo que eu forçasse o pedal sem alterações. Agradeci muito à Deus e meus amigos de luz pela força que me davam! Alguns podem dizer: ah, foi o antiinflamatório ou quem sabe a macarronada deliciosa de Quissamã. Mas eu afirmo: se você não fizer sua parte, não tem como os céus te ajudarem. Tem que fazer sua parte! Estava feliz de novo! Peguei na parte baixa do guidão e mandei ver. Até a bunda doía menos e a maior parte do tempo fui puxando o pelote até os trilhos (Yeah!!) e continuei assim agora para submeta Macaé. Mas no meio do caminho me dou conta de que o Leandro sumiu. Chamei o Nei que estava agora à frente e retornamos para ver o que houve. Encontramos ele uns 300 metros atrás no acostamento. Tinha levado uma espremida de um carro e passado com a roda traseira por cima de um tachão no meio-fio. Por sorte (e habilidade) não foi pro chão, mas o pneu estourou. A primeira troca não deu certo com a câmara esvaziando de novo com problemas na válvula. Troca de novo e põe a segunda câmara. Nesse momento, o Ivan passa por nós como uma flecha. VUUCHHH!! Caraca!   Levantamos e seguimos carreira. O Nei partiu logo na busca do Ivan. Quando juntamos, voltamos ao ritmo forte anterior e o Ivan seguiu no seu ritmo solo mais atrás. A chegada em Rio das Ostras foi num pique de motivação, completando os 400km em 17 horas, pouco depois das 03 da tarde. Minha estratégia era de descansar/dormir 1 ou 2 horas naquele PC, antes de seguir para o trecho novo ao redor da Lagoa de Araruama. O Nei queria seguir direto, mas foi convencido pela mulher a ficar e descansar também. Paguei um açaí maravilhoso e fui pro auditório da administração da Tocolândia (onde havia ocorrido a reunião técnica) descansar e pegar os mantimentos que havia deixado ali antes da largada para usar no trecho final. Deitei no chão de tábuas, apoiei a cabeça na mochila e...apaguei.
            Toc! Toc!...hein?...Toc! Toc!TOC!TOC!!  Acordei confuso com o barulho da sola dura dos sapatos do Cezar Barbosa caminhando no chão de madeira do salão. Ele dizia que não ia prosseguir, não precisava, já tinha o brevet para o PBP, queria só descansar. Olhei o celular. Droga! Eram quase 7 da noite! Tinha dormido 4 horas e sei lá quantas mais se não fosse a chegada do Cezar. Agradeci (mas acho que ele nem ouviu), peguei a mochila e desci meio torto, zonzo, as pernas doendo, o joelho direito e calcanhar esquerdo rangendo. Quando cheguei no PC na entrada do Tocolândia, a Thais me avisa que o Nei e o Leandro já haviam saído há algum tempo e o Ivan antes deles. Arrh!! O jeito vai ser ir sozinho nesse trecho novo. Vou ao banheiro e no caminho encontro o Maicon que havia chegado à pouco e descansava num banco. Tento convencê-lo a seguir comigo num ritmo ameno e ele aceita. Beleza! Depois de um alongamento partimos para os 200km finais. A ida até Araruama foi molezinha com um sensível vento a favor. Paramos em Araruama para uma coca-cola e seguimos buscando devagar a entrada para Praia Seca. Nessa estrada até o PC5 na Praia do foguete em Cabo Frio parecia uma miragem, muito escura, luzes distantes, vento constante. Passávamos por várias cidadezinhas fantasmas. O único movimento era em algum bar deserto com uma alma gritando num karaokê. Em quase todo esse longo trecho o Maicon foi ditando o ritmo. Escuridão quebrada em poucos metros pelas lanternas das bikes, parecia não ter fim.     “O que você pensa enquanto passa horas e horas e horas e horas pedalando? Lembro minha mulher me perguntar. Já pensou? É estranho... eu não lembro, quer dizer, acho que na maior parte do tempo não penso em nada, ou, penso nada. Eu só vejo, escuto, cheiro. Eu só sinto. Mas agora, nesse momento, eu só penso em chegar, chegar no PC5, eu quero chegar.”
                Finalmente, depois da placa do aeroporto, entrada de Arraial do Cabo, surge piscando o PC5. Somos atendidos pelo Thiago aparentando o mesmo estado que nós. Duas da manhã. Faltam 60km. Pouquinho. O Thiago, sei lá como, se transforma no Roberto. Como um sanduíche, ofereço o outro pro Maicon. Partimos em direção a chegada. O caminho por Cabo Frio até S.Pedro da Aldeia fui bem. Quando retornamos à rodovia a estória foi outra. Crente que ia aproveitar as várias descidinhas, que nada. O vento impedia a bike de andar se a gente parasse de pedalar. Passamos por um grupo acampados num ponto de ônibus. Gritamos,  EEEHHH!!  Coitados – disse o Maicon – eles não sabem o que os espera. Nós também não. Placa: BÚZIOS 3KM. “Chega Búzios, chega logo”.  Placa: BARRA S.JOÃO 3KM. “Chega Barra, chega logo”. Placa: RIO DAS OSTRAS 3KM. “Pôrra Maicon, esse troço não acaba?”   Eu não tinha mais jeito para segurar ou sentar na bike. Surge a ponte estaiada, agora não tem jeito, vamos chegar! Na orla, o vento a favor impulsiona as bikes para o portal de chegada. Diz o Maicon - “Puxa, não dá nem pra gritar iurrúúú.” Então sorrimos. Nós conseguimos. Silenciosos, muito cansados, mas nos sentindo EXULTANTES POR DENTRO.


Na chegada com Maicon, parceiro dos últimos 200 km.

Queria agradecer a muitos, à todos na verdade. Todos os que participaram desde os 200KM. Todos os parceiros que me acompanharam, pedalando comigo algum trecho de alguma etapa. Obrigado, sem vocês eu não conseguiria. Todos os atletas que seguiram até o final. Obrigado, sem vocês eu não conseguiria. Todos os atletas que foram, por algum motivo, ficando no caminho. Obrigado, sem vocês eu não conseguiria. Todos os voluntários que participaram e cuidaram da gente em alguma etapa. Obrigado, sem vocês eu não conseguiria. Todos os batedores nas largadas e funcionários das Prefeituras envolvidas que, de algum modo, contribuíram para realização desta odisséia. Obrigado, sem vocês eu não conseguiria. Em especial, aos organizadores do Audax Rio, Thiago, Eduardo, Roberto, Thaís, Ana, me desculpem se esqueço alguém, muito obrigado, eu garanto, sem vocês ninguém conseguiria.
Abração em todos. Quero rever a galera toda no “duzentinhos” urbano de novembro.


As belas medalhas conquistadas na série Audax Rio 2011.

4 comentários:

  1. Muito bom !!!
    Poxa tenho que dizer que quando pedalo assim também "penso nada" só sinto, e o tempo passa rápido, o cérebro tipo desliga para os pensamentos e você vive aquele momento!!! muito bom!!!
    Que bom que vocês passaram e gritaram para a gente, os indivíduos largados no ponto de ônubus... íamos perder a hora se não fosse vocês, nessa hora ninguém se preocupava com bicicleta, o negócio era descansar mesmo.
    Parabéns Super Randonneur!!

    Abraços Felipe

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  2. Oba, Fininho. Valeu mesmo. Você é um dos caras importantes nessa etapa da minha vida de ciclista, quando há tempos atrás tentava te acompanhar nos passeios kraft guiados pelo Thiago, outro grande responsável pelo meu aprendizado no pedal. Abração.

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  3. Um super abraço e parabéns pela garra de todos! Gostei muito do relato! Lembrando que ninguem parece ter escapado dos furos de pneu (eu que o diga). E pena não termos tido tempo de conversar (só por email). Caso vá ao PBP, vamos conversar. Abraços!

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  4. Ennio, show de bola seu relato, foi mto legal pedalr na parceria dos 400 com vc. Me salvou no momento em que furou meu pneu, já q tinha esquecido a bomba na pousada. Uma pena o cansaço ter apertado em rios das ostras.... Mas o que importa e terminar e parabéns pra todos nos! Concerteza estarei no 200 urbano aí no rio!!!! Vlw Ennio, Thiago show de bola a organização.....

    Abraços a todos e rumo ao 1200km na França.....

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