quarta-feira, 29 de junho de 2011

Relato Brevet 600 - Marcus Vinícius


Superação acima de tudo
Este brevet de 600 km está longe de ter sido o mais tranqüilo. Não digo na questão da distância, mas tudo o que envolveu até conseguir chegar lá. Os contratempos foram diversos e tudo conspirava para dar errado. Uma dificuldade só. Não anda nada fácil compartilhar o que eu tanto gosto de fazer com a vida pessoal e a profissional. Para “melhorar”, já ao bastando toda a dificuldade que tento transpor, sou “presenteado” com uma gripe 3 dias antes do Audax 600 km. Desde o ano passado não sabia mais o que era isso, ou seja, ficar doente. E agora? Faço? Deixo para o ano que vem? Ainda fiquei pior na véspera e o desânimo me abateu profundamente. Pensei várias vezes em desistir. Comecei a tomar a medicação e esperei fazer efeito. Era uma gangorra, pois no período noturno sempre piorava e pensei nos momentos de frio que pegaria na estrada e fiquei preocupado. Na véspera resolvi que iria assim mesmo e testaria realmente o meu limite. Seria capaz de terminar o 600 km gripado e com febre?
Combinei com o meu amigo Ivan Rolim o horário em que nos encontraríamos, já que ele viria de Cachoeira Paulista (SP) para o Rio de Janeiro, para partirmos rumo a Rio das Ostras. Com tudo acertado pegamos a estrada. A saída do Rio estava agitada (muitos carros) e algumas retenções, mas após atravessar a ponte Rio-Niterói o fluxo melhorou.
Chegamos a Rio das Ostras perto das 18h. Fui encontrar o Clemar e a Ana na Pousada da Bia juntamente com o Ivan. Conversamos um pouco, separamos o que seria levado e trocamos de roupa para chegarmos já devidamente paramentados no local da reunião técnica (Tocolândia) marcada para as 20h.
Todos com os seus passaportes, números, e dúvidas esclarecidas com relação aos 200 quilômetros finais, pois era o único trajeto desconhecido para quase todos, os audaciosos foram um a um se posicionando aos poucos para a largada às 22h. Aproveitamos o tempo restante para comer, conversar mais (com os antigos e novos audaciosos), fazer o check-list dos itens obrigatórios, tirar fotos ...

Bom... Agora chegou o grande momento. A largada! Todos reunidos e muito empolgados com este grande percurso. Tudo correndo bem estaria de volta a Tocolândia no início da noite de sábado, mas tudo pode acontecer. Digo isto não como pessimista, mas pelo meu atual estado de saúde que poderia tranquilamente me eliminar da prova.
Largamos por volta das 22h05. Muita emoção e entusiasmo tomavam conta de todos a minha volta. Contagiante! Os batedores nos ajudaram a sair da parte mais movimentada da cidade por causa do Festival de Jazz. Todos nos olhavam espantados. Não era para menos né (rs)?

A saída da cidade foi tranqüila. Eu e Ivan seguíamos o nosso caminho pela estrada sem problemas. Era uma noite que prometia ser um pouco fria, mas isso me ajuda muito mais que o calor sem sombra de dúvidas.
Chegamos ao PC 01 entre 00h40 e 00h50. Não estava sentido nada. A gripe parecia estar controlada. Comi algumas paçocas, um saquinho de amendoim, uma banana e um guaravita para sedimentar isso tudo (rs). Ficamos uns 10 minutos e partimos rumo ao PC 02, Quissamã.
No meio do caminho – entre Macaé e Quissamã – a gripe começou a dar seus sinais e fiquei preocupado. Senti uma queda no rendimento, o corpo estava estranho, respiração quente e as vias nasais congestionadas. Vi que não conseguiria acompanhar o Ivan como eu tanto gostaria.

No PC 02 Ivan resolveu as coisas rápidas, pois não havia muito realmente o que descansar, pois só tínhamos percorrido 116 km. Disse para ele partir (não queria atrapalhar o rendimento dele e randonneur que é randonneur sabe se virar), pois eu precisava de mais tempo para ver o que aconteceria comigo. Juntei-me ao Claudio Guilherme e ao seu amigo José. Não queria pedalar mais de 100 km sozinho até o Farol de São Tomé. Nossa saída foi por volta das 3h40.
Em menos de 15 minutos, após a nossa partida, encontramos com alguém que eu não desejava de maneira alguma. A chuva! Era só o que faltava. Gripado, com febre e ainda ter que tomar um banho gelado no meio da madrugada. Já não bastava o frio? Mais isso é AUDAX e você não tem escolha. Ou melhor, até tem, mas eu queria estar ali para testar os meus limites. Não façam isso em casa crianças (rs). Brincadeiras a parte eu sei até onde poderia levar aquela situação, pois não iria me expor até o ponto de me exaurir e estragar o meu pedal e para quem estivesse comigo. A chuva apertou e nos acompanhou por algum tempo. A roupa chegou a molhar, mas foi pouca coisa. O tempo passava e percebia que não estava bem, mas pelo menos não sentia sono algum e foi assim por toda a madrugada.

Eram 5h45 e ainda restavam 50 km para chegarmos a Campos. O dia já dava os primeiros sinais no horizonte. Amanheceu nublado e frio. Muito mais do que durante a madrugada. Por volta das 6h já havia uma boa claridade e a paisagem em volta começava a se mostrar. Já em Mineiros o meu rendimento caiu mais ainda e faltando uns 25 km deixei o Claudio e o José seguirem. Não disse nada e segui no meu ritmo, pois não queria segurar ninguém. Foram os 25 km mais penosos de um AUDAX para mim. A estrada não terminava e estava me sentido bem fraco. Pensei em desistir várias vezes. Era uma mistura de pensamentos bom e ruins.

Cruzei com o primeiro pelotão, onde o Nei puxava, por volta das 7h45. Imaginei que o Ivan não deveria estar distante deles e fiquei atento. Eram 7h53 e ainda restavam 16 km para o Farol de São Tomé.

Dito e feito. Ivan passou por mim 20 minutos depois do primeiro pelotão. Fiquei feliz que tudo estava correndo bem para ele.
Passei por Santo Amaro 8h10. Ainda me restam 11 km até o posto de controle. Que penúria estava sendo para mim. Finalmente, as 8h45, eu cheguei ao PC 03. Precisava tomar uma decisão. Vou continuar ou parar por ali? Tirei uma pequena soneca na cadeira para tentar ver o que aconteceria depois. Fiquei por lá 1h30. Longe do tempo que eu costumo ficar parado, mas era uma emergência e estava precisando. Comi um pão com queijo prato (sem manteiga) e tomei uma lata de coca-cola, que aliais me ajudou muito durante todo o trajeto juntamente com o pão com queijo.
Notei que muitos estavam chegando ao km 200 casados e com a impressão de já ter rodado quase o dobro. Isso era visível no semblante de muitos audaciosos. Pedi outro pão com queijo para viagem e parti de lá 10h15.
Era outra pessoa. Totalmente revigorado. Juntei-me a um grupo muito legal. Senhoras e senhores são eles: Silvia Neves (SP), André Ferreira e Manoel Andrade, o famoso The Monster. Galera alto astral.

Encontramos com o Pedro Zöhrer por volta das 11h50 parado na estrada tentando consertar mais uma vez a sua câmara de ar. Foram 9 furos no total. Acreditam? André emprestou uma para ele, pois o Pedro já havia remendado tudo o que podia. Mais a frente Marcio Bruno juntou-se a nós e seguimos assim até o PC 4.

Chegamos a Quissamã às 16h.
Descansei bastante, me alimentei bem, troquei de roupa e partimos de lá 17h para o próximo PC que seria só em Rio das Ostras, ou seja, mais de 100 km de onde estávamos. A noite chegou rápido. O grupo aumentou com a presença de mais alguns integrantes por algum tempo do percurso.
Já havíamos percorrido por volta de 330 km e estava me sentindo muito bem. Não sentia sono e queria chegar mais rápido possível em Rios das Ostras para descansar. Resolvi colar com o Décio Viana e a sua estradeira vermelha (grande companheiro até Rio das Ostras). Gente finíssima!

O que mais me irrita em Macaé são os buracos e o péssimo acostamento. A estrada também está muito ruim para quem vai no sentido Rio das Ostras. Nesta região os motoristas são loucos e sem educação. Muito estressante passar por ali neste horário.
Chegamos por volta das 22h em Rios das Ostras para finalmente fazer o que eu queria. Fui dormir, pois precisava recarregar um pouco. Ainda restavam 200 km para percorrer e tinha em mente dormir pelo menos 1h30. Fui para debaixo de um edredom e apaguei. Quando me dei conta já havia dormido o que planejava, mas parecia que havia cochilado. Terrível esta sensação. Acordei com o Manoel me chamando e levantei. Comi algo antes de sair (arroz e frango), arrumei as coisas, me agasalhei e partimos 00h50.

Acho que por volta das 1h30 vejo alguém se aproximando voltando e não acreditei. Era o Ivan perto de terminar os 600 km. Ele havia passado pelo primeiro pelotão e seguia sozinho à frente. Fiquei muito feliz. Ele já havia tentado 3 vezes fazer 600 km, em provas de AUDAX, e não havia conseguido. Foi um momento de muita emoção, pois ele precisava fechar com chave de ouro e eu queria também isso. Nós, os Megariders, já passamos por várias situações chatas. Muitos não davam créditos mesmo com os filmes, fotos e relatos. Tempos difíceis e recentes, mas como todos sabem não há tempestade que dure para sempre. Hoje a coisa é bem diferente.
Para mim ainda restava um longo caminho. Queria terminar os 600 km levando o tempo que fosse necessário. Eu queria só chegar.

O dia estava amanhecendo e eu só queria tomar um café da manhã com um pão quentinho para revigorar as minhas forças. Estava querendo ficar sonolento e a gripe não havia largado meu pé ainda. Seguimos até encontrarmos uma padaria. Esperamos ela abrir e enquanto isto eu deitei num banco de pedra e apaguei. Tomei só um café (o único do AUDAX) e não comi nada. Deveria ter comprado uns dois pães e guardado um para comer depois, mas não fiz.
O trajeto nos presenteia com belas paisagens. A região de Praia Seca, Estrada de Praia Seca, RJ 132, é muito bonita. Proporciona belas fotos.

A PRF a esquerda era a indicação para virarmos ali. Que bom. O PC 6 está bem perto agora, mas pegaríamos mais vento contra. Ele nos castigou por muitos quilômetros. Pedalei várias vezes em pé para trocar a posição e atacar melhor a ventania.

Chegamos ao PC 6 9h13 e partimos de lá 9h50. Ainda restavam 60 km e tínhamos 4h22 para chegarmos dentro do prazo. Fiz só uma parada com o Moisés e o Manoel às 11h15 para bebermos caldo de cana bem gelado na estrada. REVIGORANTE! Energético natural. Comi com a metade do pão que eu havia guardado e partimos.
Vamos que não podemos perder tempo. As inclinações não são grandes, mas depois de tanto tempo pedalando é cansativo. O vento continuava contra e foi assim até o final.

Faltava pouco, mas parecia que era muito ainda. Era uma mistura de alívio e de querer chegar logo. Estávamos mantendo entre 21 e 22 km/h. Quando tinha uma reta melhor jogávamos para 26 km e aproveitávamos as descidas para acelerar e ganhar minutos. Fininho foi fazendo contagem regressiva dos quilômetros finais. Todos estavam cansados.
A visão da ponte foi tudo de bom. Era visualmente um prêmio para mim poder olhar e ver eu consegui terminar mesmo tudo indo contra, mas não queria desistir.

A visão da ponte foi tudo de bom. Era visualmente um prêmio para mim. A linha de chegada estava próxima. Moisés ainda furou o pneu e fiquei com ele e o Fininho.

Agora pedalávamos os metros finais do AUDAX 600 km. A emoção tomava conta de todos ali naquele momento. Moisés quase desistiu antes do PC 6. Ele estava cansado e sentindo muito desconforto por conta das horas sentado no selim. Muitas vezes falei para ele fica na diagonal atrás de mim para quebrar um pouco do vento para ele. Queria que o grupo todo junto até o fim e assim foi.
Fiquei muito feliz em fechar a série de 2011. Era um sonho que vinha desde 2009 quando só tínhamos até o brevet 300 km aqui no Rio. Tenho outros como fazer os 1000 km aqui no Brasil e quem sabe um dia o Paris – Brest – Paris (1200 km).
Alguns agradecimentos especiais:
Ana Lúcia da Silva Moraes
Claudio Guilherme
Clemar João Martins Lessa
Eduardo Bernhardt e Carol
Érica Sepúlveda Alcântara
Ivan Linhares Rolim
Paulo Albuquerque e Sonia
Thiago Gomes
Também agradeço aos demais companheiros que pedalaram ao meu lado por vários quilômetros e me deram forças para terminar esta prova:
André Ferreira Nunes
Décio Viana
Fininho
Manoel (The Monster)
Marcio Bruno
Moisés (Maromba)
Silvia Neves
Randonneurs Sempre Serão!

Um comentário:

  1. Leandro Costa Três Rios, RJ
    Parabenizo a todos que fizeram esse espetáculo sobre rodas fico emocionado só de ler os relatos e espero poder estar com vcs em breve, tenho certeza q encontrei a modalidade do ciclismo que procurava pedalo diariamente de 25 a 30km e nos finais de semana de 80 a 100 km pelas estradas da minha região vou me preparar agora com uma meta participar desse excepcional grupo. Parabéns mais uma vez à todos!!!!!!

    ResponderExcluir

Por favor escreva seu nome ao inserir comentário.