quinta-feira, 19 de maio de 2011

Relato Brevet 400 - Ivan Rolim


Eu, Ivan, estava um pouco desestimulado pois não havia completado o Audax Brasil 400km, 15 dias antes. Havia ido de speed e me exauri muito. Mas havia a esperança de estar no Audax Rio 400 e testar se na MTB seria melhor, assim fiz minha inscrição com Marcus Cavalcanti. Decidi usar a Caloi Aluminum de 2001. Saí de Cachoeira Paulista, de carona, quinta-feira ao anoitecer, e fiquei hospedado no meu irmão, no Rio. Tive que faltar a um trabalho sexta-feira. Muita correria. Ainda precisei resolver problemas no Rio, e só na noite de sexta, dei uma última revisada na bicicleta, cujos pneus eram o FENG SHUI 1.3, que estava com MR TUFF e PANARACER (o qual não recomendo mais, e a explicação está no nosso site). Comprei as passagens no site da rodoviária e paguei com cartão, pois tinha risco de eu ir lá na madrugada de sábado e não ter passagem!
Assim, dormi 23h, acordei às 4h30min, e saí da zona sul Rio, sozinho, até a Rodoviária Novo Rio (12km pedalando), e cheguei quase em cima da hora da partida. Vi Edu Bernhardt, que iria fazer o Audax de single speed (1 marcha), e Maurício. Muita conversa solta e expectativas. O ônibus demorou, chegando em Rio das Ostras às 8:55 (quase o motorista não deixa a gente descer com as bikes porque só queria fazer isso na rodoviária, que era longe). Mas o Briefing só começaria mesmo 9:45. Trocamos de roupa, já havia vento contra, e o tempo nublado.

Reconheci muitas pessoas, e conheci novas, como Márcio (ele brincava dizendo que me conhecia há muito tempo.....2 ou mais anos....no facebook. Rs). Marcus dormiu na pousada e já estava descansado. Muita gente em pé, ouvindo Thiago Gomes, da Pedal2, dando as instruções. Havia 4 paulistas, eu incluído (pois ainda não consegui voltar a morar no Rio).
 
Todos fomos para a largada, pois só deu tempo de tomar um caldo de cana (sim, antes de pedalar, e foi bom).
Clima de mais expectativa. Todos felizes, desejando boa sorte, e entre os audaciosos, uma mulher, Ana, que foi exemplar do começo ao fim!
Apita-se na largada! Muitos começaram a mais de 30km/h, mas fui no ritmo conservativo, como venho fazendo esse ano. Traduzindo: 22 a 25km/h. Achei super maneiro (e importante!) a polícia ter ajudado os ciclistas. A cidade praticamente parou para a gente passar, e sinais mudavam do vermelho para o verde instantaneamente em alguns pontos! (prioridade aos ciclistas!) O que infelizmente é raro acontecer por aí em dias normais.

Opa, o sol apareceu. E esquentou bastante. No termômetro de meu relógio, que marcava 25, já marcava 35 (como pode né?). Mas é que a estrada esquenta muito mesmo. Asfalto = piche = betume = preto = absorvedor de calor!
No km 5, ainda na Av. Principal, surpresa! Meu pneu dianteiro começa a puxar para trás, como se o cubo estivesse nas últimas (mas não estava). Falei a mim mesmo 'pronto, acabou meu sonho dos 600km este ano'. Parei em uma loja de bike ali perto, e em menos de 4min um homem tirou o pneu da frente, girou para frente e para trás (talvez procurando areia ou algo preso) e simplesmente montou de novo e ficou bom. Mas fiquei em último praticamente. Não mais encontraria Marcus, que havia partido do meu lado comigo, até o PC1. Fiquei uma boa distância pedalando sozinho, vez ou outra passando de alguns e desejando força e sorte, mas feliz e confiante, filmando bastante.
Ao entrar na Eco Rural, falei 'ah vou filmar tudo!', pois Marcus havia nos presenteado com a cobertura do Audax 300 (que está nesse blog), mas ele pegou a região anoitecendo. Como estava de dia, foi um espetáculo! Curvas, bois, galinhas, cercas, montanhas ao longe.... Ué...A gente está na Serras dos Órgãos?
O pneu da frente voltou a puxar para trás. 'Falava - pronto...vou ficar!'. Como megarider, eu saberia que, se eu precisasse, eu iria correndo até o proximo PC e encontraria ferramentas. Faltando 30km, correndo a 10km/h, são 3 horas. Mas vi que o pneu parava de puxar se eu não forçasse a marcha e não ficasse muito para a frente no guidão. Passei a girar mais, e não mais me apoiava no guidão em descidas com vento contra.
Finalmente via alguns de MTB e speed na minha frente, a conversar alto. Chegamos em Macaé. A entrada é repleta de buracos, daí tem retas com predios modernos. Trânsito intenso, e algumas subidas (plano mesmo, 100%, acho que em nenhum lugar do Brasil). Sinais fechados, agora tinha que esperar. Uma ponte grande, sem acostamento, com tachões. Cuidado! Ops, estamos no centro! Olha o onibus!! Ei pessoal, DIREITA!!!
Finalmente, PC1. Achei legal ali: um campo de futebol interno, prisão de galinhas, ou algo parecido. Vi Marcus, Márcio, Guilherme, Cláudio e muitos outros. Fiquei 5min, como sempre tenho feito (otimizar minhas paradas). Sem pressa. Estava descansado pois havia começado lento. O tempo voltou a ficar nublado. Já eram quase 13h20min.
Dali até Quissamã, passaríamos por Carapebus. Ao sair de Macaé, já começa o município, e aparece em seguida o Circuito do Açúcar (só entendi o nome quando passei por mais de 10km em estradas SEM CERCA! Isso mesmo! Perdido no tempo!) Aqui, fui com Marcus e Márcio, este com a speed Pinarello. Vimos muito gado, pássaros, cabras, e até coelhos! Que ambiente incrível! Dava de 10 a 0 no Audax Brasil (exceto em Queluz-SP, que foi maneirissimo também).
Múuuuuu!
O tempo passava....10, 20, 30km, com retas, curvas, e campos misturados com DUNAS! Isso mesmo! Areia branca!
Nosso ritmo ficou entre 25 e 29km/h. Chegamos a Quissamã! PC 2! Alegria!! Muita gente bacana, macarrão, alguns tirando meias para descansar os pés... pedimos coca cola (só tinha em lata mas tudo bem). O macarrão + extrato tomate + coca-cola foi a combinação PERFEITA. Em 25min, estávamos na estrada novamente. Perguntávamos onde estava 'a elite' (uns 7 que estavam entre 30 e 40km/h), e falaram que estavam a uns 50 min à frente. Está bom demais, dizíamos.
Vislumbramos um por do sol daqueles, e só ouvíamos nossa voz na pista. Sem carro algum. Víamos pessoas esperando ônibus por mais de 1 hora e perguntava: 'vcs sabem quando vem o próximo ônibus', e a gente 'não, não somos daqui'. E mais buracos... locais totalmente em terra, como na Estrada Real. Márcio redobrou a atenção, pois estava com pneu fino. Gritávamos: 'Cuidado para não maltratar a Pinarello! Rs!
Anoiteceu. Mais buracos. Em Barra do Furado, paralelepípedos! Até as MTB sofreram! Só pneu 1.8 para cima (no caso de speed, 700x32 para cima) suportou bem. Mantínhamos boa performance e ninguém furou pneu, o que era ótimo. Marcus e Marcio param 12min para trocar o óculos, e resolvo ir à frente à 24km/h. 20 min depois, me alcançaram, a 28km/h. Acabou sendo bom para todos, pois eu estava mais lento que eles devido aos contratempos iniciais do pneu da frente, que sugou um pouco minhas energias. Márcio logo seguiria com um grupo de speed que passou por nós, a 29km/h. Ficamos nos 25km/h até o Farol de São Tomé. A noite demorou ali! Os 60km até o Farol foram feitas em 2h45min horas que pareciam 8 horas. Na rodovia, perto de Amaral, um cavalo morto e um carro da PM. Ficamos apreensivos, mas como a taxa de risco de acidente é baixíssima (0,01%) e menos ainda com reflexivos fortes e faróis, continuamos confiantes, sempre indo à grama (mais à direita que no acostamento propriamente dito) quando surgiam caminhões nos dois sentidos.
Conversávamos com um amigo, de reclinada (Marcus sabe o nome dele). Eu estava um pouco para trás e ouvia os dois conversarem. Ele dizia que ele treinava de 200 a 400km, todo final de semana, antes de uma prova Audax, para uma ótima performance. E ainda por cima , diariamente, pedalava até 40km.
PC3. Farol de São Tomé, 21h. Ficamos meia hora. Quase todos que estavam na nossa frente estavam ali. E eu Marcus tomamos 1 litro de Coca cola, cada um. Vimos no bar um painel imenso com a mensagem de Isaías: 'Mas os que esperam no Senhor renovação as forças, e subirão como águias'. Ficamos confiantes. Faltam 200km, praticamente tudo no breu. Não queria dormir nada. Aproveitei para por um pouco de FINISH LINE verde na corrente.
Na volta, 3 grupos de speed (total de umas 13 pessoas) passaram por nós, mas algumas acabaram passando da entrada à esquerda, para contornar até Barra do Furado. Conclusão: pedalaram até 20km a mais sentido Campos do Goytacazes. Tentavamos gritar, mas não ouviram. Eu e Marcus ficamos juntos até o resto do Audax, e não era prudente ficar acima de 30km/h só para avisar a outros grupos, e depois ter que voltar. Íamos gastar as energias à toa.
Mais buracos, e trechos como na 'Estrada Real', que tínhamos pego na ida, só que em maior quantidade, pois este outro lado estava pior. Mesmo com tantos buracos não vimos ninguém com pneu furado, e Cláudio e Maurício sempre apareciam na frente, como fantasmas (rs) mas tudo na maior alegria. Conversámos, eles paravam para comer sanduíche ou acertar o suporte de lanterna frouxo, e logo nos alcançavam.
No km 250 ou um pouco mais, ali em Barra do Furado, as pernas começaram a doer. Não era cãimbra. Paramos em um quiosque para comer sanduiche, café e passar Cataflan. Foi importantíssimo! Os pernilongos estavam nos matando até na cantina (desde às 19h na ida, eles atacavam, e eu pedalava com o olho quase fechado, pois preferi ir sem óculos).  Que ótimo, o cara (simpático e meio acima do peso) dizendo que não tinha café! Ah então vai coca cola mesmo! E o sanduba? O que? Demora 15min? Putz..... não foi culpa nossa demorar, pelo jeito. Aproveitei para alongar as pernas.
O vento ficou contra. Sabe aquelas brisas que você não sente, e as árvores estão paradas, mas você sabe que está puxando para trás? Pois é... de 25km/h já íamos a 21km/h. Mais uma vez, víamos Cláudio e Maurício, e conversávamos. Aqueles 4 faróis acesos no máximo fizeram pessoas caminhando acharem ser Ovis, e alguns gritavam: "AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!". Mas sempre baixávamos a luz quando apareciam caminhões e carros 'teimosos' em manter a luz alta. Logo eles abaixavam a luz! Puxa, só assim para nos respeitar!
Entre o km 270 e 280, o vento aumenta e a lua, imponente, desaparece. Aí vem chuva! E veio. Chuva moderada a forte (daquelas que você quase não vê nada). Mas dava para ver. Fomos pedalando, encharcados mesmo. Alguns de speed, na nossa frente, pararam em um ponto de ônibus e falaram 'caraca, ei ei ei , olha eles lá', como quem diz 'eles vão na chuva!'. Mas não tinha espaço para nós no ponto de ônibus de qualquer forma, rs. Em 10min, a chuva passou. Que legal, a sensação era 16°C e agora ficou 14°C. Rs...
Chegamos!!! Quissamã, PC 4. As pernas pararam de doer mas agora vinha o sono. O 'balão verde da alegria' estava ali estendido. Um oásis mesmo. Comi macarrão com tomate, e Marcus, com carne. Não foi muito bom fazer isso. O ideal era miojo ou sopa. Pois ficamos pesados. Alguns dormiram. Nós preferimos continuar, o que foi a melhor coisa que fizemos, pois não sentimos tanto frio. Eu não levava casaco, e quer saber, eu não precisava. Mas sabia que cada vez que voltava a pedalar, os dentes tremiam um pouco rs. Usei o casaco extra de Marcus e me ajudou muito, pois frio é bom, mas frio demais.... ali fez frio hein!
Só que Marcus começou a ficar sonolento, e nós ainda estávamos pesados por causa do macarrão. Resolvemos tomar 2 'ENOs' que Marcus tinha. E eu gritava: "Vamos! Vamos! Vamos!". Marcus pedalava, em alguns momentos em pé, para mudar de posição e quebrar o sono e a monotonia da madrugada.
Acho que isso deu certo, rs. Ele parou uma vez para estirar as pernas e não parou mais. Claro que, se fosse aquele sono de risco mesmo, aí não teria jeito, pararíamos no acostamento com segurança. Mas deu para ir. Tudo no breu, sem postes. Só em Carapebus e Macaé mesmo. Vento ainda contra. O frio só aumentando.
O clima era de estar em uma terra distante, em outro país. A estrada parecia não acabar. Sabe quando queremos chegar logo e aqueles "15 minutos que achávamos que eram", mas na verdade, foram só 5 minutos? Aparecia a placa 'Macaé', mas cadê a cidade? Depois de 20min, luzes, e avenidas. Mais uns 5km percorridos para finalmente chegar à cidade. Amanhecia. Ninguém tirou soneca nenhuma, mas estávamos entre 18 e 20km/h, quase se arrastando. Não era sono, era o cansaço mesmo. Uma padaria aberta. Milagre!!! Comemos 2 pães com manteiga e café quente. Marcus foi além e comeu polenguinho. Recarregamos as garrafinhas. Agora tinham umas subidas e certo trânsito, muitos de bicicleta sem capacete, e chegamos ao PC5.
Agora psicologicamente era fácil, pois faltavam menos de 50km e era dia. O dia ajuda a acordar, sem dúvida. Eu nem estava mais com sono. Marcus ainda estava, mas logo ficaria bem acordado. Por que? Porque começaram a vir alguns de speed, gritando 'vamos lá vamos lá'. Quer mais estímulo que isso? ;)
Pronto. Circuito Eco Rural. Cavalos relinchavam. Vento contra! Pássaros e os "quero-queros" fazendo ninho no chão e assustados. Águias voando baixo. Subidas e descidas (o trecho final é onde tem mais subidas). Pedalávamos a 22km/h. Na subida, pedalávamos em pé. A vontade era de parar naqueles campos, com vacas e árvores altas. Montanhas apareciam. Logo, "corredores imensos" (retas de asfalto) e curvas ao longe.
O sol esquentava! Já eram 8 da manhã! Final da Eco Rural. Subimos aquele ladeirão onde tem um monte de pedras dos dois lados, e estávamos voltando a Rio das Ostras, com várias subidas e descidas e tachões no acostamento.
Chegamos 8:50 no PC final. Foi só chegar, o vento contra virou vento a favor para quem ainda estava na estrada. E o sol aumentou a intensidade. Então já sabia, quem estava na estrada pedalaria mais rapido, mas não teria o vento frio (sentiriam mais calor). Estava feliz, porque a bike havia aguentado. Ela havia sido revisado mas agora trocarei os cubos, mesmo semi novos. Marcus ainda ficou até a parte da tarde, e recebeu os últimos, grandiosos guerreiros, e Edu Bernardt, single speed (1 marcha), aparecia na reta da chegada! Muita alegria e abraços!




Depois constatamos, lá mesmo, que TODOS COMPLETARAM. Ninguem desistiu. Me emocionei pelo fato de ter sido meu primeiro Audax 400 do sudeste concluído. Pois eu viajei muito em 2009 e 2010 para tentar os 400, e não havia conseguido em São Paulo (7 furos de pneu) e o Rio de Janeiro não teve estrutura para os 400. Só havia concluído no Paraná e de speed.
Agora verdade seja dita: sempre queremos melhorar. O ritmo não foi dos melhores e houve quem chegou 2h na nossa frente, mas e daí? Queremos chegar e bem! O que adianta forçar e não chegar? O maior triunfo também é pedalar curtindo ;) Em breve estarei fazendo a cobertura deste grande evento com os Megariders!
Um grande abraço a todos e que continue eternamente essa grande família!


Ivan Rolim

3 comentários:

  1. Muito bom o relato, parabéns Ivan!!!

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  2. Parabéns pelo feito Nei. Show de performance. Nos encontramos no Audax 600km. Abs (Equipe Megariders)>

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  3. Baita relato, Ivan!
    Eu sou o cara da reclinada.
    Sim, pedalei muito todos os finais de semana entre o Audax300 e o '400, mas foram 'apenas' 120 ou 200Km por domingo, além dos 40km diários. Isto e os cinco quilos a menos (três meus e dois da bici) me permitiram passar de uma média de 16km/h para 25km/h nos trechos entre os PC's. Sobrou tempo até para dormir!
    Abs,
    Ricardo

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