sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Relato Brevet 200 - Alex Cutrim

Essa não foi a primeira vez que eu pedalei 200km. Nem era também o meu primeiro Audax. Mas a ansiedade era igual de principiante. De uma certa forma eu estava começando, só que de novo. Esse Audax marcaria meu retorno aos pedais de longa distância desde meu afastamento por uma fratura de clavícula menos de 2 meses antes. Duzentos quilômetros é chão, e não é por que você conseguiu uma vez que fica mais fácil. O ombro vai doer? Será que deu tempo de me recuperar? Será que eu vou conseguir? Só tem uma forma de descobrir, vamos pedalar!

A largada foi na praça das baleias em Rio das Ostras às 6 da manhã. Cheguei em cima da hora pois meu celular fez confusão com o término do horário de verão... Falei rapidamente com alguns amigos, fiz a vistoria com a organização e ajustei os últimos detalhes da bike. Já alinhado na largada me espantei com a quantidade de ciclistas dispostos a realizar uma prova assim. Havia até uma equipe do Esporte Espetacular fazendo cobertura do evento. O ciclismo só cresce, que bom! A sirene de um batedor anunciou a largada que foi rapidamente seguida do barulho de clipar de pedais e urros de incentivo e energia. Um grupo na maior parte de speedeiros tomou a ponta e eu me posicionei logo atrás. Na programação da prova seguiríamos em comboio até o início de Barra de São João para só depois dispersar e seguir em direção a Macaé.

Nesse primeiro momento estávamos rodando pouco acima de 30kmh, mais rápido do que gostaria. Eu não queria gastar muita energia no início então fui monitorando cuidadosamente os batimentos cardíacos para manter as coisas sob controle. No retão de Barra de São João vejo a primeira baixa da prova. Um ciclista estatelado no chão aparentando dores no ombro (clavícula? pensei). Que azar, logo no início ter uma queda feia. E se fosse eu, como meu ombro ainda em recuperação reagiria? Afastei rapidamente os pensamentos negativos e me concentrei no pedal. É preciso ter atenção sempre. A guarda municipal já estava junto então segui em frente. A essa altura o pelotão da frente havia aberto uma distância considerável da massa atrás. Seguir com eles seria queimar muita energia no inicio então aguardei um grupo me alcançar para seguir atrás do vácuo.

O vento seria um dos grandes personagens dessa prova. De manhã cedo ainda estava “manso” mas já dava pra sentir que o negócio ia apertar. Se puder pedalar em grupo tanto melhor. Assim segui até o primeiro PC no meio de uma estrada após 41,8km. Usando o vácuo a média ficou em quase 27kmh, muito bom! Passaporte na mão, esperei minha vez no meio de tantos ansiosos para preencher logo o cartão e seguir viagem. Completei a caramanhola com água e aguardei o mesmo grupo partir. A estrada era muito bonita e com um asfalto excelente. Algumas poucas subidas e descidas suaves. O dia já havia amanhecido e o tempo estava espetacular. Poucas nuvens no céu e um azul intenso. No meio do nada numa estrada quase deserta é fácil perder a noção do perigo. Um ciclista saiu da fila indiana e foi para o meio da pista. Quase que imediatamente um carro em grande velocidade freia em cima buscando evitar a batida. Foi por pouco...

Tem pneu furado no Audax? Tem sim senhor! Fora os tantos speedeiros que vi trocando pneu no inicio, era minha vez de furar. Traumatizado pelos três furos do último Audax levei três câmaras reservas (além de remendo!). Vários comboios passaram por mim, todos oferecendo ajuda. Trocar pneu é moleza, dureza é botar 60psi com micro-bombinha... Pneu montado, segui com outro grupo até o PC2 em Macaé no km 64,4. Hora de repor a caramanhola com água e maltodextrina e comer alguma coisa. Banana já havia acabado mas tinha maçãs suculentas. Eu também trouxe um pãozinho francês com queijo e manteiga “só pra garantir”. O trecho dentro de Macaé foi bem chatinho porque o asfalto era bem irregular e tinha mais trânsito e sinais.

Apesar de ter vários grupos saindo do PC nesse trecho eu acabei sozinho na estrada. Até o PC em Quissamã foi o pior trecho pra mim. O vento aumentou com a evolução da manhã. O sol esquentou. Estrada cheia de sobe e desce. Em alguns momentos não passava de 17kmh, no plano! A cãibra começou a dar comichão, era uma luta para não endurecer. Muita dor lombar, precisei parar várias vezes para me alongar. O cansaço embaralha as idéias, até pensei em desistir num momento de fraqueza. Coloquei pela primeira vez o iPod com música e comecei a relaxar. Comecei a pensar no que tinha à minha frente ao invés de concentrar no desgaste do momento. Pensei na água gelada do PC em Quissamã, no vento que estaria a favor na volta e no fato de que em Quissamã faltaria menos da metade para o término. “Quissamã é menos da metade para o término”, repetia como um mantra. Com 100km rodados, numa reta que não tinha fim, comecei a cruzar com o pessoal voltando de Quissamã. Estou próximo! Entrada da cidade. Ciclovia. Placa para prefeitura. Cheguei! PC3, 115 km de prova. Uma bela recepção montada pela prefeitura e a organização. Duas caixas d’água, muita fruta e uma bela macarronada. Sem dúvida a melhor macarronada que já comi, temperada com 100km! Bebi bastante água, comi dois pratos de macarrão e várias bananas. Nesse PC fiquei mais tempo para descansar o almoço. Revigorado, agora era aproveitar o vento a favor e só pensar no retorno.

Retornando pelo mesmo caminho você tem uma memória visual dos lugares por qual passou. Eu sabia onde podia parar para água e quais trechos haveria subidas. A tranqüilidade de saber o que lhe espera ajuda no planejamento mental. A ultramaratona é um esforço físico mas também um esforço mental. Dominar as restrições da mente e descobrir os limites do corpo. O sol continuava implacável, mesmo de calça e camisa de manga comprida dava para sentir ele torrando a pele. O termômetro do meu ciclo indicou máxima de 45ºC sendo que uma boa parte da prova se realizou em torno de 40ºC.


Eu percebia que estava chegando em Macaé pela qualidade do asfalto... Até o próximo PC o caminho era reto, mesmo por dentro da cidade não tinha como errar o caminho. O PC4 ficava no meio de Macaé mas dali em diante foi outra estória... Depois do PC encontrei um ciclista perdido que me perguntou o caminho. No meio de alguns cruzamentos, próximo à linha do trem, perdi a certeza. Consultei o GPS do celular e o mapa não tinha a estrada do próximo PC. Perguntamos aos pedestres pela direção de outros ciclistas e assim fomos, na esperança de não estarmos seguindo perdidos também! No PC haviam me dito que era para entrar no posto da polícia rodoviária. E tome chão e nada do posto aparecer. Tínhamos de sair da Rod.Amaral Peixoto sob o risco de chegar em Rio das Ostras pelo caminho errado e perder o brevet! Estamos no caminho certo? Será que é preciso voltar? Mais paradas para consultar mapa, planilha, pedestres. Acabamos encontrando o posto, estávamos no caminho certo desde o início. Você está perdido se está no caminho certo? Não sei, mas perdi mesmo foi uma caramanhola nesse trecho.

No último PC antes da chegada (km 189) o tempo começou a nublar e o sol perdeu um pouco da força. Nessa altura o corpo só queria parar, muitas cãibras aparecendo o vento já não ajudava e as vezes atrapalhava. Dali até a chegada não pensei em mais nada, só na alegria de ter concluído essa distância. Faltando 15km nada me impediria de concluir. Na chegada o cumprimento dos amigos e a medalha da organização, muito bonita por sinal.

O Audax é sinônimo de superação. Além de superar a distância e os elementos, esse Audax teve uma importância especial pra mim. O espírito do randonneur prepara a gente para os momentos que exigirão perseverança e obstinação. Há dois meses, eu estava afundado na minha tristeza por estar imobilizado numa cama operado com uma placa de titânio. Eu só tinha dúvidas da minha recuperação. Perguntava pros médicos e pros fisioterapeutas, mas não recebia respostas objetivas. A verdade é que ninguém pode dizer com certeza o que você consegue e não consegue fazer. Eu usei o Audax como motivação para minha recuperação. Respeitei o período de descanso e segui as orientações dos profissionais. Pedalei na bicicleta estacionária ainda com os pontos da cirurgia. Cuidei da fisioterapia e da alimentação como se fosse treinamento. Só pensava “não seria maravilhoso poder concluir o Audax em fevereiro?”. E foi!

5 comentários:

  1. Antonio Ferreira

    Alex, gostei muito do seu relato e me fez repensar o que fazer daqui para frente. "O ciclista estatelado no chão" era eu. Estou muito feliz de saber que tenha se superado e realizado esta prova. Realmente você estava certo.... Era o ombro e infelizmente foi ligamento. Parece que quebrar a clavícula é melhor para recuperar do que sendo ligamento. Uma coisa que relatou e que é verdade, é que parece que nessas horas os médicos não sabem de nada e só pensam em dizer que tem que operar. No meu caso existem divergências quanto ao grau da lesão e até então nada me convenceu de ter que operar. Estou com os movimentos, alguns limitados, mas cada dia que passa (e cada bolsa de gelo...) me parece estar melhor. O que venho sentindo mais agora é o inchaço e algo parecido como fadiga do músculo(a região tensa e algo como uma queimação).
    Bem, vou aguardar as duas semanas de repouso e o tratamento com anti-inflamatório e gelo. O resultado da ressonância sai na segunda e vamos ver no que vai dar. Vou seguir os seus comentários e recomeçar os treinos da parte inferior do meu corpo e a alimentação voltada para as competições. Pelo seu sobrenome acho que mora em Niterói. Conheço uma pessoa com este sobrenome.
    Obrigado por postar este tipo de relato, pois ele é muito importante para as pessoas que estão na mesma situação neste momento.

    Forte abraço, Antonio.

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  2. Oi Antonio, que chato vc ter se machucado logo no começo do Audax....
    Qdo vi alguém caído no chão (você....), já estava do outro lado da pista. (pedalei com speed)
    Torci para que nao fosse nada e para que vc voltasse a pedalar... pena, não dei dessa vez.
    Ligamento é chatinho, mas logo vc estará pedalando, pode ter certeza.
    Te encontro no próximo Audax 200 !
    Saúde !!
    abs,
    Monica Espirito Santo

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  3. Muito bom o seu relato, curti bastante! Foi fiel, detalhado e me senti com vocês! E agora recuperado, são novas estradas! Um grande abraço, e que venham mais viagens!!

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  4. Beleza Alex! Valeu pelos seus comentários! Sebastião Wilson.

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  5. Antônio, não se preocupe que tudo vai dar certo. Me diziam isso e eu não acreditava, hahaha. Operar ou não operar, passei por esse drama também. No final a recuperação era mais rápido e o resultado menos incerto. Se quiser trocar uma idéia sobre o que eu fiz para melhorar o processo me procura no Facebook. Boa Sorte pra você!

    Alex Cutrim

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