sábado, 4 de dezembro de 2010

Relato Brevet 600 - Claudio Guilherme

Primeiramente, quero dar os parabéns ao Maurício Helman, por ter completado  500 km desse incrível Audax 600,  ele estava com vários problemas,  a saúde enfraquecida pois estava saindo de uma forte gripe, e mesmo assim lutou muito, eu presenciei sua força de vontade, pois estava lado a lado com ele até próximo ao km 460, ali, tive que manter meu ritmo para ainda ter esperança de brevetar, parabéns meu amigo, fez a coisa certa, preservou sua integridade física ao invés de arriscar voltar 100 km debaixo de mais de 40 º, ainda tendo que subir vários tobogãs. Desde 2008, tenho feito parceria com o Maurício, isso é fundamental, alguém que rode no mesmo ritmo, tenha objetivos simples, como o de chegar ao final da prova, sem a preocupação de seguir uma programação rígida, acho que nas provas de Audax, a flexibilidade e a regularidade são fundamentais.
Quando fiz os 400 aqui em SP, foi Boituva mostrar suas subidas, ali, já aprendi que pela topografia dessa região, não tem jeito, temos que estar conformados em passar pela altimetria dos tobogãs, e não estar conformado é como esperar algo que não vai ter.

Assim chegamos a Holambra, a cidade das flores, eu sinceramente, estava tão focado nessa prova, que não vi flor alguma, alguém viu ?

Ao chegar no Hotel, notei que foi estrategicamente escolhido para quando os atletas estivessem completando a prova, os torcedores os avistassem de longe, principalmente os mais lentos como eu, com suas lanternas ligadas.  Após nos divertir tentando arrumar tanta “tralha” será que não trouxemos coisas demais, e após deixar uma bagunça organizada, fomos encher a pança de pizza, e ainda tentar lembrar de alguma coisa que poderíamos ter esquecido.

Eu, sinceramente não preguei os olhos até estar alinhado as 4 da matina em frente ao hotel, etapa Holambra/Porto Ferreira/Holambra, que maravilha, saber que daqui a 250 km, estaríamos de volta, quem sabe como.

Logo após a largada, algumas pequenas subidas, e subidas e mais subidas, até condensar em uma imensa descida a mais de 60 km/h durante vários minutos, ali, naquela hora, tive um dos melhores momentos da prova, uma fila de 11 bikes iluminadas de vermelho, descendo e descendo, fazendo as curvas pra lá e pra cá, um verdadeiro balé ciclístico de verdadeiros heróis, pois ao terminar de descer, imaginei a galera subindo toda essa alegria para completar a primeira etapa

A equipe dos PCS estava infalível, não nos faltou nada, pude notar que todos saíam satisfeitos. Percorrendo o caminho de volta ao hotel, lembrei do paredão que teríamos que enfrentar, aí, resolvi girar sem pressa, apenas mantendo a média satisfatória para poder descansar ao chegar no hotel, foi quando tive a maior surpresa da prova, 8 atletas de ponta abandonaram, não entendi nada, será que estou dormindo ainda, sonhando, sei lá, mas era verdade, restaram então 7 + eu.

 Joguei uma água no corpo, reabasteci tudo que tinha direito, e fiquei na concentração esperando a hora de   partir,  naquela hora, prestes a começar a segunda etapa, Holambra/Rio Claro/Holambra, 150 km a ser pedalados, eu tive um momento especial, ainda estou na prova apesar de tantas desistências, ainda não estava entendendo nada, porque não tive oportunidade de saber os motivos de cada um, que também acho que foi bom, assim sem saber de nada, também não penso em nada que não deva pensar, enfim, estava muito bem situado comigo mesmo dentro de minha programação de não correr mais do que as pernas. Nessa etapa, houve muitos contratempos, deixa pra lá, passamos a ver pelo lado positivo, é o que eu queria, sabe porque, a outra escolha seria o negativo, e eu queria estar bem.

Fizemos um bom lanche no PC de retorno, e vamos voltar “pra casa”, e nos preparar para o desafio final, háaaa, já ia esquecendo, essa segunda etapa, foi a repetição praticamente de quase toda a primeira etapa.

Dessa vez ninguém abandonou, todos os 8 guerreiros estavam na briga pessoal de brevetar, eu estava convicto de  que não ia dormir, estava a fim de tomar um bom banho, trocar de roupa, aliviar o máximo o peso da bike, deixei até alguns itens, que estava levando em dobro, só esqueci de levar a balança para saber quanto de peso aliviei, hehe. Banho tomado, roupa trocada, fui me alimentar, eu programei minha alimentação o melhor que pude, fui com meu alforje que me deu muita tranqüilidade, ali pude ter tudo o que queria, claro que tomando cuidado para não levar peso desnecessário.

Ao invés de dormir, resolvi fazer uma pausa somente, fiquei em uma posição confortável, e viajei nas imagens de que tive até agora, e como poderia reagir em uma situação difícil, em que teria que dispor de uma reserva que ainda não tinha experimentado, mais de 400 km, em uma situação de esforço ainda não vivido. Pois bem, foi exatamente isso que aconteceu.

Última etapa, Holambra/Casa Branca/Holambra, saímos eu e o Maurício do Hotel, com menos de 13 horas para bater esses 200 km, eu sabia que estava apertado, o Maurício já estava num estado de “torpor”, como se estivesse hibernando para guardar energia, estávamos pedalando mais devagar do que deveríamos, e olha que ainda não sabíamos o que nos esperava.

Alguns 40 km pedalados, e entramos como posso chamar de  “ corredor da morte”, ali eu tive meus momentos mais difíceis, nunca lutei tanto contra o tempo, superação, era o termo para aquele momento , e fui ficando sozinho, pois o Maurício já não estava mantendo o ritmo mínimo possível para chegar a tempo, e olhando a navegação, iniciava  as subidas  com um tempo abaixo do aceitável, pois a média caía para menos de 12, e precisávamos de 16 ao menos, ao descer, estávamos dentro, a media subia acima dos 16,  mas no total das duas médias, não  chegaríamos lá a tempo de voltar antes das 20 horas. Foi quando tive que apertar o pedal para chegar, e lá na frente, no alto de uma montanha, avistei um ciclista, imaginei um nativo pedalando despreocupadamente, mas, de repente, reconheci a característica inconfundível de um ciclista que conheci nos 400 de Boituva, o Osvaldo, impressionante esse cara, perfeito na pedalada, não tive dúvida, vou tentar chegar nele, só assim poderei ter chance. Ele estava pedalando muito tranqüilo para a logística que tínhamos, então parece que ele entendeu, e fomos o mais rápido que podíamos, mas lembro que ele me falou, cara, acho que não vou voltar, tô muito cansado, eu falei que também tava, mas tínhamos que tentar, e o tempo estava contra nós. Naquela hora, forçando cada vez mais o pedal, o vento era pouco, o calor no capacete era algo novo pra mim, nunca senti tamanha temperatura na cabeça, o suor descia pelos braços, em poucas vezes encharquei tanto minhas luvas como naquele momento, não tinha mais o que fazer, era dar o máximo e rezar para não travar. Enfim conseguimos chegar no PC, começamos a hidratar, só liquido descia, alguns suplementos na esperança de não ter câimbras, consegui mais uma garrafinha de água mineral, mas queria outra, para acumular água, foi quando uma voluntária, acho que era, só sei que naquela hora, foi uma grande amiga, me cedeu uma caramanhola cheia de gelo, guardei tudo no alforje, e estava pronto para sair, foi quando o Maurício chegou, parecia que estava saindo de um campo de batalha, e estava, e por fim, decidiu pelo melhor para ele naquele momento, não continuar, nessas horas, a própria pessoa é que tem que decidir, só ele.

Nesse momento, o Paulo Albuquerque, que estava na prova também, saiu na frente, Osvaldo e eu saímos logo depois, tínhamos cerca de 5 horas  para fazer 100 km, media de 20 km/h, nada difícil numa situação normal,  e combinamos de nos revezar no vácuo para economizar energia, mas não consegui ficar na roda dele, ele estava de speed, o Paulo também, eu estava de híbrida bem mais pesada, então refleti, , vou mandar ele seguir, e segurei para tentar chegar, pois caso contrário ia ficar,  e nesse trecho as montanhas eram intermináveis, eram + -  40 km de tobogãs,   mas pela situação de exaustão e calor, a sensação era muito mais, ali nessas subidas , parei três vezes para hidratar e ainda repor calorias de suplementos que tinha no alforge, minha salvação, fui continuando, girando e senti que estava fortalecido de novo, consegui sair das montanhas para fazer os 60 km finais em um terreno menos montanhoso.

Eram +- 17 horas, tinha 3 horas pra chegar, fiz as contas, e vi que tinha que manter media de 20 km/h, ali quem sabe seria possível, zerei meu cataye de apoio para me focar nos 20 km/h de média, sem me preocupar com a média geral que até ali era de  15,2,  e por como um milagre, o carro da organização emparelhou comigo, parecia que estava me vigiando, perguntou se eu queria líquidos, balancei a cabeça que sim, logo  ele encostou, abasteci, e antes de sair ele me fez uma pergunta que não saiu da minha cabeça, você esta muito apertado no tempo, acho que não vai conseguir, quer uma carona até o hotel,  eu disse que não obrigado, que iria pedalando mesmo, isso me fortaleceu tanto, que estava fazendo média acima de 25, e logo  mais a frente, vejo um ciclista com sua bike no chão de rodas para cima, quem era, o Osvaldo, acabando de colocar sua roda após um furo, outro presente, fomos detonando km por km, cada vez mais fortalecidos, já estávamos com tempo sobrando, mais de 30 min., então, ao entrar em Holambra, fomos  presenteados com um banho de chuva , que caiu torrencialmente antes do Portal, aquilo foi demais, sentimos a recompensa de todas as provocações de desistências sofridas, e assim,  tive o prazer de emparelhar com o grande guerreiro Osvaldo, brevetando seu segundo 600 esse ano de 2010.

Apesar de ter sido uma prova duríssima, consegui interagir com o meio ambiente, isso me manteve na prova, não adianta lutar contra, tem que ir i vir, de acordo com o que está pela frente, e sempre terá um novo aprendizado, é isso que nos motiva a partir para o próximo Brevet.                                                              
  
Muito obrigado a todos, que de alguma forma contribuíram para que eu tivesse forças para completar esse grande desafio.

Cláudio Guilherme

6 comentários:

  1. Cláudio, muito legal o seu relato, principalmente na parte em que você coloca que quando o carro de apoio lhe ofereceu carona, foi um momento de ganho de ânimo para continuar com o seu objetivo de chegar dentro do tempo.Neste momento você estava com uma média geral de 15,2 e sabia que, no restante, teria que elevar esta média para, no mínimo, 20 km/h. Parabéns, Sebastião Wilson.

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  2. Parabéns Claudio por representar tão bem Niteroi/RJ. Você é um vencedor!

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  3. Obrigado meus amigos, espero ter sempre saúde para estar pedalando com vocês, em breve estaremos juntos em mais um desafio.

    Abração

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  4. Relato inspirador!
    Fiquei até emocionado relembrando dos momentos desse duríssimo 600!

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  5. Parabéns Cláudio. Seu relato é inspirador e dá pra imaginar tudo a cada linha do seu relato. Mais uma vez parabéns pela prov que foi dureza. Abs!

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  6. no próximo breve 600, vou estar na sua cola!!
    Sou do outro lado da poça.rs
    De repente, mais um no pelotão facilita, normalmente vou de híbrida também.
    pode anotar aí meu e-mail,
    e Parabéns

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