sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Relato Brevet 200 - Ricardo Paiva

Minha intrépida jornada começou há 2 meses, quando me inscrevi num evento de nome 'Audax'. Para a maioria dos seres mortais, isto não quer dizer bulhufas, mas para aqueles que se movem sobre 2 rodas, isto é sinônimo de 'Desafio'! E não estou falando daquela rapaziada de casaco de couro e motocicletas barulhentas, me refiro àqueles de cujas canelas se extrai giros, muitos giros. Neste evento os atletas (ou loucos, como preferirem) desatam a pedalar por horas, até completar percursos de mais de 100km. E tudo em nome de quê? Não há nenhum prêmio em jogo e nem mesmo há um ranking dos melhores. O estilo Randonnée entra cena e livra o evento do ranço competitivo onipresente nos esportes, e resgata um espírito cooperativo entre todos os participantes. O importante é chegar lá. Nem que seja preciso empurrar a bicicleta ladeira acima, remendar pneu furado, ou desabar no meio-fio para descansar. A luta é de você consigo mesmo, sem oponentes. Só há mesmo os muitos quilômetros e as intempéries da natureza, que de um jeito ou de outro deixam sua marca no percurso.

Há alguns meses venho colecionando quilômetros. Cada vez que saía para pedalar, voltava com pelo menos mais 100 na conta. No mês que antecedeu o evento foram mais de 800 km rodados, uma marca inédita para mim.

O domingo do dia 14 de Novembro amanheceu ainda sem sol. Acordei às 4 horas da manhã para buscar minha fiel companheira magrela e rumar para a linha de largada do Audax Brevet 200. Ela passou a noite na Tijuca, na casa de um casal amigo que, gentilmente, cedeu um cantinho na garagem, junto com os outros ciclos do prédio. Às 5:30 já estávamos preparados, eu e ela, prontos para a partida, mas não sem antes dar um abraço no pessoal que, mesmo só tendo visto 1 ou 2 vezes, já tinha ares de amigos de infância. Estávamos ansiosos pelo estopim do início, mas também excitados em falar sobre equipamentos, acessórios e estratégias para as muitas horas que viriam a seguir.

A largada se deu às 6:05 com o carro madrinha ditando o ritmo inicial. Nada de andar muito rápido ou avançar sinal. Os primeiros quilômetros não poderiam ser mais saudáveis, cerca de 100 ciclistas pedalando em uníssono pelas ruas da Tijuca. Uma agradável sensação de bem estar tomou conta, fruto da energia contagiante dos atletas e dos passantes que madrugaram como nós, ou daqueles que nem tinham dormido ainda.

O carro madrinha se despediu no final da Av. Rio Branco, depois de nos ter acompanhado da Tijuca à Av. Presidente Vargas. Seguimos, já acelerando, rumo ao primeiro grande desafio: a subida do Sumaré. O brevet do Rio é considerado difícil, justamente por ter, no meio do caminho, 12km de subida. Tudo bem que a inclinação não é das piores, mas é uma estrada interminável. E o primeiro posto de controle (PC) nos esperava justamente lá em cima, meticulosamente posicionado para evitar desvios furtivos que viessem a minimizar o esforço de algum engraçadinho. Aliás, por ser um Audax urbano, foram instalados 8 PCs, distribuídos em pontos estratégicos, dando suporte aos atletas e controlando o tempo de cada um. Após o primeiro PC foi o momento de descansar as canelas e curtir a descida das Paineiras até o Alto da Boa Vista, com direito até a flagrar uma família de macacos prego se equilibrando entre um galho e outro. O cenário não podia ser mais motivador.

Para quem achou que as subidas haviam terminado, ledo engano, ainda faltavam uns 3km para vencer na estrada da Vista Chinesa. Nada que mais 20 minutos de pedal não resolvessem. Como pedalo com muita frequência por aquelas bandas, minha bicicleta fez aquele caminho no piloto automático. Depois da Mesa do Imperador, uma longa descida rumo ao Jardim Botânico.

Já haviam se passado 50km e quase 3 horas de prova quando passei pelo segundo PC no Leblon. Apesar de estar num ritmo bom, era preciso aumentar a média de velocidade para não estourar o tempo limite, mas isso teria que esperar até chegar a Barra, porque ainda precisava enfrentar o breve declive da Av. Niemeyer e a estrada do Joá. Ah! o Joá. Por que Deus foi colocar aquela subida justo ali. Ainda não era tempo de reclamar, pois ainda tinha bastante gás, mas o corpo já começava a dar alguns sinais de cansaço. Depois da descida, parei para comer alguma coisa salgada, pois só de barra de cereal não ia dar para levar. Perdi um tempo danado naquela loja de conveniência. Vi um monte de gente passar, mas com o estômago forrado, desatei a pedalar. Usei a leve brisa que soprava a favor, para elevar minha média de velocidade e acumular os muitos quilômetros da Barra até o Pontal. Cheguei no terceiro PC lá na praia da Macumba com 4h45’ de prova e 82km rodados. Mais comida, dessa vez banana para aliviar a câimbra que me acometeu na altura da Reserva. Apesar de ter pedalado sozinho no último trecho, me juntei a um grupo na saída do PC rumo à estrada do Pontal.

Ao chegar na Av. das Américas o vento contra atrapalhava um pouco, mas não chegou a comprometer muito meu desempenho. Segui pedalando até a altura do Downtown, local do PC4 e na altura do quilômetro 92 da prova. Não demorou muito e já estava montado em meu camelo pedalando rumo ao autódromo de Jacarepaguá. Sim, eu passei por lá. Sempre achei que ali era longe pra caramba, mas depois que se vai de bicicleta, tudo parece mais perto. O PC 5 era o ponto pelo qual devíamos passar e voltar para a Av. das Américas, em direção à estrada do Pontal novamente. Falando parece fácil, mas enfrentar novamente todo o Recreio, em meio àquela buraqueira não foi fácil. Na altura do quilômetro 140 eu estava morto. As câimbras começaram a se tornar mais freqüente, minha bunda doía e, principalmente, meu joelho estava um bagaço. Desconfio que a vilã foi a sapatilha, mas não dava para mudar nada no meio da prova. Segui pedalando, num ritmo bem mais fraco até o PC6, na praia da Macumba. Cheguei lá reclamando um pouco das dores e eis que surge o “Gel Milagroso”. Anunciado com essa alcunha e cuja eficácia eu agora dou fé. Passei o gel na perna e, milagrosamente, dali em diante não senti mais, absolutamente, nenhuma câimbra. O santo remédio se chama “Mineral Ice”, e usa o mesmo princípio ativo da Arnica, certamente potencializado.

Não fosse o gel ter minimizado minhas câimbras, minha prova teria acabado ali. Já sentindo o cansaço dos muitos quilômetros percorridos, ao apontar minha magrela em direção ao início da Barra, uma rajada de vento desnorteante me empurra no sentido exatamente oposto. Nunca havia pedalado com um vento contra tão forte em toda minha vida, e aquele tinha que acontecer justamente no meio de um Audax 200? O jeito foi tomar coragem e seguir se esgueirando por longos 20km. Meu joelho me dizia que já tinha chegado no limite a cada giro do pedal. E nada é tão ruim que não possa piorar, quando deixamos a Reserva, a chuva começou seu castigo. Com o vento e a chuva, o frio chegou arrebatador. Seguimos por mais 8km com essas condições desumanas, até chegarmos no PC 7. A Barra estava ficando para trás, marcada pelo vento cruel da orla e a chuva, que já alagava algumas ruas por onde tivemos que passar.

O segundo milagre aconteceu justamente quando nos despedíamos da Barra. Em um momento chovia torrencialmente e, no instante seguinte, a chuva se extinguiu. Nem mais um pingo. Acho que era uma benção Divina para aqueles que sobreviveram à tormenta e que ainda teriam pela frente, o Joá. Ah! o Joá. Por que Deus foi colocar aquela subida justo ali. Já tínhamos pedalados 170km e, além dos quilômetros finais, ainda restava uma última subida pela frente. Enfrentei bravamente aquele quilômetro de aclive na mais leve das marchas, no estilo “vovozinha”. Tudo doía, principalmente o joelho. Um último PC nos aguardava em São Conrado, logo depois da descida do Joá.

Parecia que a corrida já havia terminado. Dali para frente era só gerenciar a dor e seguir no automático. Passamos Niemeyer, Leblon, Jardim Botânico, Humaitá, Botafogo, Aterro, Lapa, Estácio... ops, não foi tão simples assim. Quando íamos atravessar o Sambódromo, havia um samba no caminho. Não houve jeito de convencer o segurança a nos deixar atravessar. Tivemos que desviar pela Av. Presidente Vargas e retornar até o Estácio. Dali em diante pouca coisa poderia nos deter. Faltavam apenas alguns quilômetros que qualquer criança faria. Seguimos em linha reta até a Tijuca e finalmente à linha de chegada.

Uma salva de palmas recepcionou os bravos guerreiros que chegaram até o fim daquela aventura. Foram 206km pedalados em 12 horas. Finalmente conquistei o Audax Urbano Brevet 200 do Rio de Janeiro, a prova esportiva mais difícil de toda minha vida (até agora).

Um comentário:

  1. Amigo Ricardo, só tenho a parabenizá-lo pelo feito e dizer que você foi e é um grande guerreiro, sensacional, espetacular, são as palavras que encontrei, mas o texto também já diz tudo, mais uma vez meus parabéns!!!

    Quem sabe na próxima eu também não vivo essa maravilhosa experiência ao seu lado!

    Grande abraço,
    Breno Godinho.

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