segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Relato Brevet 200 - Humberto Guerra



Eu já tinha feito um Audax 200, em Curitiba, usando minha Rally "anti-sequestro" com pneus finos. Estava então na companhia do Vinícius Mundim, também de MTB, e do Augusto Machado, de reclinada. Terminamos com folga dentro do tempo previsto, e achei que era uma empreitada bem cansativa, mas perfeitamente factível. Quando ouvi falar do primeiro Audax do Rio, urbano, fiquei interessadíssimo, mas um vai-vem nos preparativos da organização - compreensíveis, em se tratando de uma estreia - acabou desanimando o pessoal do MTB-BH que estava interessado em formar um bonde. Dessa vez, como a prova estava em uma época mais tranquila do ano, me animei, junto com mais alguns aqui. Mas decidi dar uma apimentada no desafio, fazendo a prova com minha dobrável da Dahon, uma Jetstream P8. Mantive toda a configuração original dela, apenas troquei os pedais de plataforma por de encaixe. Ninguém tinha notícia de já terem feito algum Audax aqui no Brasil de aro 20 (mas deve ter caso sim, pois se já teve de Barra Forte...) [Edit: mentira], e fazer algo pouco usual também me animou. É visível, sobretudo no plano, a diferença de rendimento de uma aro 20 para uma MTB (aro 26), e principalmente para uma speed. Mas eu tinha quase certeza que, usando bem o tempo limite da prova (13h30, acho), daria certo. Havia uma dúvida sobre a bike dar conta: até hoje, só havia dado rolés bem mais curtos com ela. 

Um Audax urbano no Rio é muito diferente de qualquer outro no Brasil. Primeiro, por ser urbano - os demais são em rodovias -, o que introduz um fator muito significativo, a navegação. Sobretudo para quem não mora ali e não conhece a cidade, não ao menos no nível de circulação. E, segundo, por ser no Rio: essa cidade faz jus ao apelido, mesmo tendo sido judiada por décadas de administração conivente com a ocupação desordenada das encostas dos morros e por uma sociedade que não se deu conta dessa bomba-relógio - como, de resto, acontece em tudo quanto é cidade grande brasileira. De todo modo, a mistura de natureza com cidade que se vê no Rio, principalmente quando se percorre partes mais altas, é impressionante. 

Viajamos em seis pessoas, em dois carros: Guta, Simoni, Poliana, Vinícius, LG e eu. Ficamos na casa de um amigo da Simoni, em local extremamente bem localizado, na confluência de Ipanema com Copacabana. No sábado, ficamos por conta de ir à reunião técnica, aproveitando para aprender o caminho - a largada seria no mesmo endereço, o Shopping Tijuca, próximo ao Maracanã. Depois fomos para um restaurante italiano provisionar o que gastaríamos na prova. Dei uma boa olhada na planilha e nos mapas, já achando que fazer essa prova o tempo todo parando para navegar seria bem chatinho e demorado. Bem fez op resto do povo, que deixou despreocupadamente para tratar desse problema quando ele aparecesse. 

No domingo, chegamos ao Shopping Tijuca errando o caminho, faltando calibrar alguns pneus, sem saber se seríamos multados por estacionar em local de rotativo sem talão, e a cinco minutos do horário de largada. Milagrosamente tudo deu certo, e seguimos o carro-madrinha em ritmo bem confortável - algo entre 15 e 20 km/h - pelos primeiros quilômetros do trajeto. No grupo, umas três reclinadas, e o resto praticamente se dividindo entre speeds e MTBs com pneu fino. Uma pequena parte faria o Desafio 100 km, e não o Brevet 200. Quase todos os Audax 200 fazem esse Desafio 100 em paralelo - foi ele que a Poliana correu. 

O carro-madrinha abandonou o grupo no começo da longa subida que criou grande expectativa em todos os participantes, a do Sumaré, que leva às partes mais altas (de estrada) do Parque Nacional da Tijuca, e que faz com que esse seja considerado por muitos o Audax mais edifícil do Brasil. 

A subida é espetacular. Tem uma inclinação muito suave, e é muito longa. Quem é de BH tem uma boa referência: a inclinação é bem parecida à do começo da Rua do Ouro - ou seja, um plano sutilmente inclinado. Fiquei com a impressão de que essa inclinação é perfeita para a relação e a geometria da Jet, porque deu para subir em excelente velocidade, mantendo a frequência num patamar aeróbico que daria para sustentar por muito tempo. No fim dela, o primeiro PC, e estruturado. A prova tinha oito PCs, metade deles com infra - alimentação e hidratação sortidas e generosas - e metade sem (mas mesmo nesses havia água). Até ali a orientação tinha sido tranquila, porque depois do trecho com o carro-madrinha o caminho era praticamente único. Peguei algumas informações no PC sobre o próximo trecho, que também era tranquilo porque sem bifurcações, e fui embora. Era a parte mais agradável do roteiro: descia-se de volta para o nível do mar, passando-se por alguns dos pontos mais espetaculares da cidade, como a Vista Chinesa. Nesse trecho, e também na subida anterior, a mata do Parque, de tempos em tempos, se interrompe para descortinar vistas maravilhosas da Baía da Guanabara, da Lagoa e daquela paisagem cheia de ilhas e morros brotando do mar que faz o Rio ser o que é. O asfalto do trecho todo é impecável, há sombra, mata e muita umidade na estrada, e embora a descida seja tão gradual quanto a subida, o lodinho nos cantos da via dá uma adrenalinazinha pra quem desce até o Jardim Botânico. 

Ali eu sabia que a parte boa do pedal tinha terminado. Eu fatalmente teria que começaria a navegar, a toda hora parando para me localizar. Mas foi só eu fazer menção de abrir o mapa que apareceram dois cariocas, Eryck e Marcos, com quem pedalei até o fim do Audax. Eles tinham estudado o caminho, conheciam muito bem a cidade, sabiam a localização dos PCs e são ágeis e seguros no pedal urbano. Um estava de MTB, outro de speed. Chegamos ao PC da Gávea, onde estava meu amigo e ídolo Zé Lobo, capo da Transporte Ativo, entidade cicloativista que está mudando a cara do Rio. Na nossa frente, segundo nos informou o Zé, havia apenas um speedeiro, que tinha feito recentemente o l'Étap du Tour - bom escalador, portanto. Mas, por não portar colete, ele foi, dois PCs depois, desclassificado e abortou a prova. Claro que o Audax não é competição, mas muita gente tenta fazer a prova no melhor tempo que consegue, e quando se chega cedo nos PCs, fica-se curioso com sua posição - e, sobretudo, fica-se com vontade de mantê-la. 

Os 150 km restantes do percurso eram planos, com exceção da curta subida (e descida) do Joá. Passamos pela Barra, pela reserva de Marapendi - onde fomos instruídos a passar por uma ciclovia calçada, evitando a auto-estrada -, pelo Recreio dos Bandeirantes e pela Estrada do Pontal. Em algum dos PCs do caminho, dois catarinenses em speeds bacanaças se juntaram a nós. Um deles, o Milton, eu já conhecia de um Encontro Nacional de Cicloativismo acontecido alguns anos antes no próprio Rio. Havia mais um carioca speedeiro, de cujo nome não me lembro, e esse grupo cruzou todo o Recreio num ritmo bem bom, com revezamento na puxada. No trecho do Recreio ao Pontal, porém, o Eryck imprimiu um ritmo tão forte, que esse último speedeiro desistiu do pelotão. Na volta, após a ciclovia de Marapendi - a tal calçada - e entrando na da Barra, isso com uns 160 km de prova, tive meu pior momento. Pegamos um toró na Barra, aliado a um fortíssimo vento contrário. Mesmo com a fartura dos PCs, acho que dei uma bobeada com a alimentação e a hidratação, e fiquei bem cansado. Lamentei perder aquele pelote já no último quinto da prova, mas realmente estava fraco e precisava me recompor pra terminar. O pior seria ter que navegar, abrindo mapa e planilha na chuva. Minha única chance de conseguir andar junto com esse pessoal seria se alguém furasse o pneu. 

E não é que, daí a 500 metros, encontro o povo sentado na beirada da ciclovia? : ) Um dos catarinenses tinha justamente furado o pneu! Em vez de esperar, preferi seguir a ciclovia até o próximo PC, e o Marcos, na única MTB do grupo, resolveu ir comigo, em ritmo tranquilo. Também reclamou da puxada do companheiro. Chegamos ao PC, comemos, bebemos e descansamos até as três speeds chegarem. Fiquei feliz demais de estar de volta ao grupo, e dali em diante tinha certeza de que aguentaria o ritmo, ainda mais que parou de chover. Ainda havia a subidinha do Joá e a da Niemeyer, onde deu até para tirar um tiquinho de onda e puxar o pelote. Infelizmente o percurso não passou pelas praias da Zona Sul: a organização desviou o trajeto por conta da Parada Gay. Passamos por Humaitá, pelo Catete, sob os arcos da Lapa, desviamo-nos do Sambódromo por causa de um evento que fechou o acesso, e chegamos no Shopping Tijuca por volta de 15h15, com cerca de 9h15 de pedal - e, segundo o meu cateye, apenas uma hora de paradas somadas. Fomos recebidos com bastante festa na chegada: éramos os primeiros a brevetarem. [Edit: tempo oficial = 9h19 de pedal] 

Algum tempo depois, começaram a aparecer os próximos. A bike da Poliana já estava lá havia horas - os 100 km acabaram cedo pra ela -, trancada no bicicletário, enquanto ela fazia umas comprinhas no Shopping. Vini e LG chegaram juntos. Fomos todos comer, torcendo para que Simoni e Chuchu conseguissem terminar em tempo hábil. Conseguiram, até com alguma folga. Fomos pra casa, virar gente, reaprender a subir escadas, tomar um banho e sair pra comemorar com rodízio de pizza. Dormimos o sono dos justíssimos, e no dia seguinte, após um brunch em Ipanema e uma caminhada na praia, pegamos a estrada de volta. 

Adorei a prova. Achei a organização estupenda, sem falhas - apenas sugiro que, de uma próxima vez, haja mais comida de sal nos PCs, muito mais demandada que doces e barras de cereal. Todo mundo foi muito gentil e atencioso conosco - acho que éramos a maior delegação de outros estados -, tanto o pessoal da organização quanto o dos PCs. Uma quantidade absurda de bebida e comida nos PCs, muito mais, como comentei com o Edu, que a galera daria conta de consumir. Parabenizamos e ficamos muito gratos ao pessoal da Pedal2 e ao Edu. 

Outra que merece menção é a Dahon Jetstream. Êta bike boa! Segurou a onda direitinho, rendeu muitíssimo bem nas subidas, e deu conta de manter o ritmo nos planos, onde eu achava que ela ia perder demais. Dahon rules! : )

4 comentários:

  1. Parabéns pela prova !
    O Breno Hirata tem uma dahon jetstrem também. Essa bike aí só engana no tamanho. Já fizemos longos pedais com subidas fortes como Rio-Teresópolis-Rio. Essa bike simplesmente pula na frente, e nas subidas a roda menor aliada a uma coroa 53, ajuda muito isso sim.
    Aproveitando o ensejo, vc já teve uso ou sabe de alguém que faça longas distâncias com uma aro 16? Minha dúvida é se ela roda bonito como uma jet ou se a partir desse tamanho começa a perder desempenho demais.

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  2. Caro Kekoleko,

    Até conheço gente que tem uma Curve - a aro 16 da Dahon -, mas não que tenha pedalado grandes distâncias. No caso da Curve, há ainda a limitação da relação de 3 marchas, que tem amplitude muito menor que a Jet. Acho que, ainda mais que a Jet, o principal problema de perda de desempenho estará no plano.

    Pretendo testar a Jet em um Audax 300 no primeiro semestre de 2011. Vamos ver como ela vai se sair.

    Abraços!

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  3. Tenho uma Jet dessas, mas modelo 2006, que tem o quadro um pouco mais arredondado. A bichinha voa mesmo, bem versátil e muito mais leve que as minhas outras Dahons, sou fã!

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