quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Relato Brevet 200 – Ana Amélia Martino Fellet

A primeira vez que ouvi falar em pedal de longa distância foi em Copacabana quando um amigo disse que estava indo para Laranjeiras de bike? "Como assim??? É muito longe", me espantei.
Muito depois disso, já adentrando nesse universo ciclístico, desembolsei 200 reais por uma caloi usada e fui para um passeio à Quinta da Boa Vista. Naquela época, eu pesava 110kg, 20 a menos de quando fiz a cirurgia que prometia mudar radicalmente minha vida. Nesse processo pós-operatório, o ciclismo me ajudou a emagrecer dignamente, a me encontrar em algum esporte, a ter hábitos saudáveis e fazer amizades eternas.
Quando soube do Audax, nesse ano, achei que seria legal ter essa meta. 
Afinal, a bicicleta já não era aquela de 200 reais, os 55kgs excedentes já tinham ido embora; Teresópolis, Conservatória, Saquarema e muito outros lugares já estavam em nosso portfolio. Vista Chinesa e Paineiras são quintalzinho de casa. O desafio 100 para mim não parecia desafio. 200km sim, seria um grande desafio. Breno, meu namorado e ciclista-fera se propôs a me acompanhar com o objetivo de chegarmos juntos na reta final. Com este cenário, os ventos sopravam a favor.
E faz dieta, e pega pesado na musculação e começa a correr, e acorda cedo para pedalar, e compra uma bike top.
O dia chegou e num pacto divino torci para duas coisas: minha coluna não doer (por que sinto dores homéricas mesmo com bike fit) e minha recém descoberta hérnia na barriga não me dizer "oi"). Cheguei no Shopping Tijuca com a empolgação do primeiro dia de aula: rever os amigos, pedalar, vamos conseguir, vai ser relax, a gente treinou e a gente merece!
As fotos dos Audax passados que mostravam os primeiros quilometros quando o pelotão ainda é escoltado pelo carro não fazem juz ao que é realmente aquilo. Astral e clima inimagináveis. Uma aura de espírito esportivo, coletividade que é difícil descrever.
Quando o carro saiu e a largada oficialmente foi dada, as distâncias já se abriram. Na subida até os trilhos de Santa eu comecei a esmorecer muito mais pela pressão que é ver o pessoal correndo, um passando o outro do que pela subida propriamente dita, que como disse, somos íntimos. Preferia pedalar assim, só eu e Breno, devagar e sempre. O primeiro erro.
Dito isso na subida do Sumaré estávamos lá, no nosso ritmo, parando algumas vezes para esticar a coluna, tendo a companhia de alguns ciclistas.
O PC 1 foi vencido às 8:22, 20 minutos para fechar. Era preciso correr por que o PC 2 fechava em 40 minutos. Ali eu ainda não tinha a noção exata de quanto o tempo era mais que precioso e que mais a frente faria muita falta. E pára no postinho e faz xixi, e come alguma coisa e conversa com os amigos e mostra a bike nova....
Chegamos no PC2 dentro do prazo de tolerância e encontramos nosso amigo Fabrício, ciclista experiente de quem eu sou fã, sentado e morto de cansado por conta da noite mal dormida. Me assustei ao vê-lo ali pois o Fabrício é fera. "Vamos lá, a gente vai num ritmo leve, vem com a gente". Fomos.
Subimos Niemmeyer, paramos antes de encarar o Joá para esticar a coluna. Nisso, nosso amigo Aravena nos liga "Já estamos na reserva". Putz, estamos muito atrasados. Encara o Joá, desce o Joá. Breno sinaliza que precisa comer. Paramos numa barraca de pastel na Praça do Ó. De novo, gastamos alguns minutos importantes. Temos 50 minutos para chegar ao PC3. São 18 km de orla. BORA! Aqueles ciclistas que nos acompanhavam no Sumaré apareceram e era tão bom vê-los e ficava tão feliz por eles, mesmo sem até hoje saber seus nomes. Força no pedal, falta pouco pro PC3 chegar. Chegamos, mortos mas chegamos: bebe água, come amendoim, senta, conversa e o tempo passando. VAMOS, BRENO! Fabricio dava sinais de que ia desistir, deitou no chão e sequer respondia ao chamado. Achei melhor não insistir por que cada um sabe seus próprios limites e, naquele caso, meter pilha para ele continuar seria mais uma imprudência do que amizade. 
Fomos Breno e eu. Na estrada do Pontal já cruzamos com o primeiro pelotão voltando. Putz, não acredito o quanto estamos atrasados. O pessoal já estava uns 50km na frente.
Chegou a Ayrton Senna, a Av. das Américas. Avistamos o amigo Aravena voltando também. 
Com o vento contra, um trânsito agressivo, pensei em desistir ali. Começou a chover, a perna não respondia mais. O Barra shopping não chegava. Faltavam 5km, o Barra Shopping finalmente chegou. Corre. Faltam alguns minutos pro PC 4 fechar. Breno deu muita força.
Mas o tempo não. Começou a chover muito forte. Chegamos no PC 4, 3 minutos antes de fechar. Vamos que só faltam 13 km em 40 minutos para o próximo PC fechar. Quando súbíamos na bike chegaram nossos amigos, aqueles que não sabemos os nomes. Muito bom vê-los como a gente, vencendo PC a PC no esforço.
No caminho para o PC5, eu percebi "VAI ROLAR!!!!!!!!". O ânimo mudou, a vontade de desistir era passado. O vento já não estava contra, a chuva deu uma trégua. Meti o pé e chegamos finalmente com alguns minutos de folga. 
De repente, aparece Fabrício (aquele estatelado no chão do PC3) como uma Fênix surgindo das cinzas. MUITO FELIZ!!!!!!! A partir dali fomos juntos, rumo ao PC6 encarar a Ayrton Senna e estrada do Pontal. A sensação era de que vai rolar! Não tínhamos dúvidas. Estamos voltando agora! Uma questão de diagramar bem o tempo! Vamos nessa.
Novamente chegamos no PC 6 em cima do laço. Me sentia naquelas gincanas de colégio. Focar em pedalar de 20 em 20km era inclusive uma forma de não pensar nos assustares 200km de uma vez. Dali para o PC7 no Quebramar, tinhamos 20,5km em 1:20h. Tranquilo. Se a gente fizer uma média de 18km/h, rola!!!!! Já na virada da curva para a pegar a praia, todos sentimos o impacto do vento. Com 150km nas costas já, a perna não respondia. Tava todo mundo morto. Vamos!!!!! Estamos voltando agora!!! Repetia isso como um mantra! Mas a força do vento não deixava a gente passar dos 11, 12km/h. Era muita força contra. O tempo estava acabando, faltava meia hora, 20 minutos, 10 minutos e a Barra não chegava. Não dava mais. Nem por milagre.
Literalmente morremos na praia na certeza de que fizemos tudo o que era possível. 
Eu particularmente fiquei muito frustrada pois estava esperando o dia 14 de novembro como a noiva espera o dia do casamento. Estava muito animada, focada e determinada em conseguir. Para que? Para nada. Para mim. Para superar algo que eu estabeleci.
Na volta para casa, chovendo ainda, com o vento forte na cara, com dores no corpo todo ainda xingava os deuses, o destino, o vento, o acaso, tudo. E o Breno e Fabrício me fizeram perceber de que a gente pode ver o copo meio cheio ou meio vazio e que era preciso que eu enxergasse o "meio cheio".
Às vezes, quando a gente quer muito uma coisa que não conseguiu, a gente esquece das coisas que a gente quis e conseguiu: no meu caso, estreei minha bike dos sonhos, emagreci, bati meu recorde pessoal de quilometragem, tive todo o suporte e força do Breno quando a perna já não obedecia. Conheci pessoas maravilhosas que enaltecem o espírito esportivo. Superei todos os meus limites fisico e metal inimagináveis há tempos atrás. O resumo é que estou muito orgulhosa de mim e pude perceber que tudo é possível mesmo quando o vento diz não.


13 comentários:

  1. Muito bom!
    Parabéns!
    A persistência é uma das facetas do espírito randoneiro.

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  2. Excelente vídeo, muito bem produzido! Eu lembro de ter acompanhado vocês desde a barraca de pastel até a volta do PC6. Também passei por essa de estar no limite do tempo sempre, e no final consegui completar. Tenho certeza que da próxima vez vocês completarão. Força!

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  3. Ana, você esta de parabens e fico feliz pelo depoimento, muito legal e agora você já sabe o nome da galera que te acompanhava (Felippe Falcão, Fred e Felipe Augusto) e mesmo com mais de uma hora depois, chegou ao shopping Tijuca. Mesmo sem ninguém lá, foi uma vitória.

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  4. Muito bacana o depoimento e o vídeo da Ana Amélia. Apesar de não ter completado, parabéns!
    Mais valem as lágrimas da "derrota" do que a infelicidade de ao menos ter tentado. Na próxima você termina!

    E na próxima eu também participarei do Brevet 200. Portanto, agora: que venha o 200!!! Rs...
    Forte abraço a todos,
    Leandro Quariguazi.

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  5. Na hora eu realmente fiquei muito P da vida. Mas refleti muito sobre isso. De bike a gente aprende que o que importa não é chegar mas curtir o caminho. Senão, a gente subia Vista Chinesa de carro, sem suar, né? As chegadas de bike tem outro sabor, outro colorido. Obrigada a todos pelas boas energias. Isso dá mais ânimo para continuar treinando (para o próximo Audax, claro) :)

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  6. Assim como não há ganhadores no Audax também não há perdedores. Quem acordou cedo num Domingo, se propondo a pedalar 200 km, é senhor dos seus medos. A insegurança tantas vezes imobiliza e a vida passa sem que se conheça toda nossa grandiosidade. Quem pedalou, botou seu mundo em movimento. E descobriu algo mais sobre si mesmo.

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  7. Poxa Ana que pena vc não ter terminado a prova, o vídeo ficou muito bacana!!! Bjim chuchu!!

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  8. Concordo e muito com esta frase final do seu video...
    "Pior que não terminar uma viagem é nunca partir"
    A.K.
    Agora é treinar para o de janeiro!
    Parabéns pelo seu novo recorde 186km, não é mole não!!
    bjs

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  9. Parabéns pela determinação! Tenho certeza que na próxima você termina fácil.
    Pelo depoimento e pelo vídeo pude perceber que o que te faltou para completar a prova foi experiência e não preparo físico. Se você tivesse feito o percurso antes, ou pelo menos parte dele, e dado uma boa estudada nele com certeza você terminaria a prova.
    O que me ajudou muito a terminar a prova dentro do tempo foi fazer um reconhecimento de todos os trechos do Brevet antes da prova. Fiz cada trecho num dia diferente, mas foi suficiente para eu ver a dificuldade de cada um deles e me planejar melhor. Graças a isso eu consegui subir o sumaré, no ritmo ideal para mim (que acabou sendo superior ao que eu achava antes) e pude prever o vento contra na orla da barra/recreio na volta.
    Estas duas informações me ajudaram muito para que eu não chegasse no PC1 muito em cima da hora e para que eu desse um jeito de chegar no PC6 com uma boa folga de tempo, porque eu sabia que seria difícil manter os 15km/h até o PC7.
    Infelizmente para aprender a importância de um bom planejamento antes do Brevet eu tive que quase não completar um Brevet 200km por questão de tempo e não terminar um Brevet 300km por questão de frio, que destruiu o meu psicológico.

    Te vejo na chegada do Brevet 200km de Rio das Ostras.
    Abraços,
    Fígaro(Guilherme)

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  10. Oi Guilherme, é isso aí. Concordo com você muito embora eu tenha feito o trecho algumas vezes. Subo o Sumaré com certa frequencia e orla do Recreio também (que eu detesto). Absolutamente nunca tinha pegado um vento daqueles e levei um susto. Tudo foi muito corrido. Tava bem morta. O que me ferrou foi a alimentação. Eu comi 3 bolachas antes de sair de casa, uma banana no Sumaré, um pastel na feira, e um pacote de amendoim. Nada de barrinhas de proteina, carboidrato, gatorade, ou seja, carro não anda sem combustível. Teve uma hora que eu literalmente tava pifando. Mas fica a lição. Se pudesse voltar no tempo faria diferente, diagramaria o tempo diferente, não me conomizaria ali, economizaria aqui e bola pra frente.
    Obrigada pela dicas e em fevereiro COM CERTEZA estaremos lá com um final diferente para o videozinho! rs.
    bjs

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  11. É muito bom ler estas história! E é melhor ainda quando vemos sucesso acontecendo. Parabens por ter superado os seus limites. Parabens para todos que participaram este evento.
    Foi muito legal também ver o vídeo. E saber que a amizade também faz parte da atividade.
    Valeu e parabens! Continue assim!

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  12. Ana: Nem só o nome e o ciclismo nos aproximam!! Participei do meu primeiro Audax 200km em março/10. Apenas 2 meses após começar a pedalar. E vou te dizer: foi uma das melhores experiências da minha vida!!Além da falta de experiência, da MTB com pneus grossos se arrastando pelo asfalto, tive problemas no freio a disco desde o início da prova. Era uma pedalada para frente e três para trás!! Completei!! Com 10:30 de tempo, mas completei!!
    Váaaaarias vezes quis desistir, mas algo faz com que a gente prossiga. Talvez a vontade de se superar, o prazer de pedalar, mas acima de tudo o apoio das pessoas próximas!! Isso é pedalar em equipe!!Meu filho de 15 anos e meu namorado foram meus apoios..quando pensava em desistir, eles estavam ali! Continue sempre!!"A persistência é o caminho do êxito!!"
    Abraço

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