quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quando 1 + 1 = 200...

... ou como uma bicicleta e um ciclista fazem 200 km.

Relato do Brevet dos Voluntários.
No domingo passado resolvi encarar o Brevet 200 Urbano (categoria voluntários) com minha bicicleta de uma marcha só. Há alguns meses treinando com ela eventualmente, eu colecionava opiniões bem opostas. Alguns adoravam, outros torciam o nariz. Mas eu estava adaptado e com uma boa tática para aquelas subidas íngremes que eu não conseguia pedalar. Sem querer provar nada a ninguém, além de mim mesmo, saí de casa às 6 da manhã após uma noite de chuva. Meu companheiro do dia me avisara que não iria. Tinha mentalizado a pedalada várias vezes nos dias anteriores e estava tão focado que nem cogitei desistir por falta de companhia. Não levei quase nada na bicicleta, além do celular e das ferramentas básicas, uma garrafa de água e algumas barrinhas e bananadas. O GPS da Pedal 2 para marcar o caminho foi no bolso. Não coloquei o suporte de guidão do GPS pra não me distrair. Nesse afã por concentração até tirei o ciclocomputador. Imaginva que despojado de tecnologia eletrônica iria poder me concentrar no trânsito, que parecia ser o maior desafio.
Pedalei lentamente de Botafogo até a Tijuca. Liguei o GPS e parti às 6:50, meio aborrecido com o atraso, mas igualmente determinado. O que pensar nessa hora? Como se concentrar no fundamental no início do que seriam mais de 12 hs de jornada urbana? Seria um erro encarar tudo sozinho? Sem PC, sem nenhum apoio?
Os devaneios cessaram com a primeira fechada, culpa minha, e a distração deu lugar à atenção. Pedalei sozinho o dia todo e apenas por alguns instantes pus em dúvida a real utilidade dessa jornada insana, mas ao mesmo tempo fascinante. Superar desafios não está no topo de minhas prioridades, mas o momento psicológico pedia algo neste sentido. Se fosse capaz de superar a distância e uma eventual dificuldade ganharia confiança para outras lutas.
Todas as dicas que sempre recebi e repassei aos ciclistas audaciosos passaram por minha cabeça, precisaria de todas elas e mais alguma nova que descobrisse pelo caminho.
Um momento de tensão no início da subida da Rua Alice, uma pequena dor no joelho. Tão cedo era péssimo sinal. Mudei a posição e ela sumiu para nunca mais voltar. Só que a cabeça já se pergunta: ‘ Será um sinal?’. Sabia que podia encarar todo o Sumaré sem marchas e sem precisar empurrar, mas optei por não forçar. Desci e empurrei em 2 ou 3 momentos, aproveitando para comer e beber. A decisão foi acertada. Cheguei menos cansado ao topo e com a cabeça no lugar certo chequei os freios, afinal o chão estava úmido. Tudo certo e desci a média velocidade.
Passei pelo circo da prova ‘Desafio Subida do Imperador’ e a amiga Renata Loureiro era chamada naquele instante para o 3º lugar do pódio. Mas nem parei pra ver, só pensei no parabéns.
Vencida a primeira e maior subida estaria tranqüilo, mas eu sabia que o mais desgastante estava por vir: a imensidão da Barra da Tijuca e Recreio.
Nem cogitei pedalar a subida do Joá, empurrei sem cerimônia. Desci concentrado e assim fui até o Recreio, meio chateado com o vento que estava a favor e forte, logo seria contra na volta, quando estivesse mais cansado.
Pontal ok, Américas idem, só me atrapalhei numa parada numa lanchonete que era muito ruim e tive que parar de novo um pouco mais adiante. A tática de parar pouco e bem estava prejudicada, mas segui em frente.
Nas Américas o vento contra apareceu, mas fraco. Quando chego à Avenida Ayrton Senna ao lado do Via Parque o primeiro grande susto. Um ciclista decide atravessar a pista exatamente na minha frente. Trava tudo! Xinga pra lá, xinga pra cá... Segue em frente.
Ao chegar à Estrada dos Bandeirantes uma obra atrapalhou muito a pedalada. Curiosamente é a construção da ciclovia...
Mais obras e muito caminhão, mesmo num domingo, que levantavam a areia jogada na pista pela própria obra. De repente o segundo susto: um carro perde o controle e roda na pista, invadindo a contramão, mas eu já tinha passado pelo local da ocorrência, só ouvi o barulho e vi o carro parado atravessado. Definitivamente eu não estava gostando daquele lugar. Passei incólume e algum cansaço já incomodava. Quando cheguei de novo ao Recreio o forte vento contra transformou aqueles 20 e poucos quilômetros numa subida! E das íngremes!
Pelo menos o calor estava ameno. Parei para tomar um suco e rumei para o Joá de novo. Empurrei sem dó. Hehehehe.
Em janeiro abandonei o Brevet nesta subida, quando deitei num banco à porta de um condomínio e, exausto, só saí de lá no carro de resgate da amiga Carolina. Olhei pro mesmo banco e pensei: ‘Hoje não‘. Talvez tenha sido essa a motivação maior. Completar o que estava inacabado desde janeiro.
O Joá era a última grande subida, restando apenas a suave Niemeyer, facilmente vencida. Agora era só seguir o caminho mais curto para a Tijuca. Parecia fácil, mas estava realmente cansado e quase me dei por vencido quando passei a míseras 3 quadras de minha casa! Por que eu tô aqui? Pra quê isso? Vou pra casa!
Só que estava muito fresco na memória todo o dia de pedalada até ali. Não podia desistir tão fácil. Acelerei. Era o que me restava para aplacar essa vontade enorme de parar. Eu tinha que chegar logo na Tijuca. No Aterro girei os pedais como se tivesse saído de casa àquela hora.
Entrei no Centro da cidade e peguei a Lapa. Estava fechada! Aos domingos é área de lazer. Desviei e o ritmo era alucinante pra quem tinha 180 km nas costas. Mas parei em todos os sinais. Sabia que cansado era mais fácil me distrair e fazer uma besteira. Preferi a prudência.
E, com ela, mais uma determinação e concentração novas para mim, que virei na Avenida Maracanã às 19:15 daquele longo domingo que estava engasgado desde janeiro e parei no mesmo ponto de partida na pracinha ao lado da entrada do Shopping. Peguei o GPS e desliguei, marcava 200 km percorridos em pouco mais de 12 hs.
Não havia ninguém lá, além dos passantes. Nenhuma barraquinha, nenhuma medalha, nenhum abraço ou parabéns, nada, apenas a certeza de que essa é uma fantástica aventura urbana que basta a si mesma e me fascina desde que desenhei o primeiro roteiro urbano de 200 km para o Brevet de 2008. Mas eu acho muito pesada e por isso sempre digo que nunca mais voltarei a fazer... Pelo menos até o próximo ano. :-))
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Agradeço à Carol, minha esposa pelo apoio e aos amigos que ligaram e enviaram mensagem nos dias seguintes. Valeu mesmo!
Aproveito para desejar boa prova aos 92 audaciosos e 28 desafiantes do próximo domingo. Boa aventura para todos!
Eduardo Bernhardt

11 comentários:

  1. Edu, pode ir se preparando, pois no domingo o esquema vai ser SIGA O MESTRE...hehehe.
    Parabéns pela pedalada audaciosa.
    Abço

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  2. Impossível ler e não me emocionar. Ler seus relatos é como seguir cada pedacinho da viagem ao seu lado.
    Te amo :)

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  3. Legal, Edu! De single-speed é complicado! Já tive essa experiência e lá no meio a gente fica se perguntando: "pô, onde é que eu estava com a cabeça"? :-)
    Acho que não repetirei a empreitada.
    Boa prova a todos!
    Abraços
    Raul Sanvicente

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  4. Parabéns meu camarada!!!
    Passar perto de casa é uma das melhores e piores sensações que podemos ter ao encarar um Audax. O risco de abandono é muito maior. Abraço.
    Alan Marra

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  5. parabéns, pela sua jornada... rsrsrs...
    no treino também fui andando em alguns pontos das subidas, rsrsrs... mas minha bike não era muito boa e estava com alguns problemas...
    estou muito ancioso para chegar esse domingo, pois esse vai ser o meu 1° desafio... não vejo a hora de chegar, suas palavras e dicas vão me ajudar muito...
    forte abraço

    felipe gondim

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  6. Nossa Edu, PARABÉNS! quem é apaixonado por pedal, não tem como não se emocionar lendo esse seu texto! Até domingo!! Boa prova a todos!

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  7. Eduardo,
    seus relatos fazem tão bem quanto as pedaladas, para o corpo e para a mente.
    Obrigado pela oportunidade de lê-los. Obrigado por compartilhar conosco momentos tão importantes.
    Abraços,
    Fred
    Nova Iguaçu

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  8. Socorro! Alguém tem o arquivo para GPS Garmin do Brevet de 200?
    Se não, vai ter um catarina perdido no Rio Domingo

    Quem tiver, pode mandar para: nrmacedo1@gmail.com

    Grato

    Forte Abraço
    Ricardo
    Florianópolis-SC

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  9. Fala galera do Audax!!
    Parabéns...
    Vc realizou o "seu" Caminho da Fé!!
    Eh um prazer estar envolvido neste evento!!
    Abs e ate sabado!!
    Claudio Xavier

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  10. Parabéns Edu! Muito bom o seu relato. Sincero e realista. Boa sorte para todos nós no domingo.

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  11. Meu querido filho, os desafios dessa vida têm que ser enfrentados com garra e determinação.
    Esse audax e o teu relato provam que estás no caminho certo para enfrentar qualquer desafio.
    Beijo e parabéns.

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