quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Relato do Paulo Albuquerque - Brevet 400 SP

Audax 400 km Boituva-SP

Sábado 21/8/2010: Fiscalização dos equipamentos necessários e obrigatórios para a participação no Brevet 400 km (28 inscritos) e desafio 150 km (30 inscritos). Após todas as checagens, estamos prontos para a largada às 7:17 da manhã de sábado.
1° trecho: Da largada até o PC 1 no Posto Rodo Star no Km 77,2. Caminho bastante tranqüilo apesar de algumas subidas muito fortes, mesmo com inclinação de 4% de gradiente, mas com altimetrias que variavam de 300 m, em distâncias de 3/4 km. Chegada ao PC 1 Km 77,2, às 9:55. Já estavam no posto 4 audaciosos 3 de São Paulo e um do Sul, inclusive o organizador Rogério. Mais alguns minutos chegam meus amigos do Rio de Janeiro. Hidratamos, alimentamos um pouco com carboidrato, vistoriamos as bikes e fomos em frente.
Partimos para o PC 2 no Km 145,4 - Churrascaria Carrero que fica no km 275 da Rodovia. Nesse momento começo a perceber muitas subidas para uma prova como o AUDAX  já que estou acostumado a fazer trajetos mais planos no Rio de Janeiro. Com exceção do AUDAX URBANO (200 km), que passa pela floresta da Tijuca.
Ao meu lado na prova estava um Audacioso de São Paulo que acabara de fazer o Audax 300, 45 dias atrás e disse que o percurso foi difícil, mas não como esse até agora. Ele foi um dos que desistiu ao final! Então achei melhor começar a reservar energia, pois tinha muito chão à frente para pedalar.

Chegando ao PC 2 Km 145,4 às 13:15, os 4 primeiros audaciosos já tinham saído do PC sem almoçar, pois iriam comer no PC 3 (Km 206,3), então refleti melhor e achei conveniente me alimentar (almoçar) e hidratar bem para continuar. Logo chegam meus amigos de São Paulo do Audax 300 e do Rio. Aproveitei para descansar e almoçar com minha mulher e apoio nessa jornada. Após uma hora parado e bem alimentado podia seguir em frente, pois até agora só tínhamos andado 1/3 da prova e a noite ia ser longa.
Rumo ao PC3 Km 206,3 na Alameda Quality Center km 335 da Rodovia para Bauru-SP.
O corpo começava a ficar um pouco desconfortável pela posição da bicicleta speed, pois estou mais acostumado a andar de mountain bike, com a qual faço as provas da FECIERJ e X TERRA BRASIL. Mas nada como um bom alongamento e um cataflan gel para melhorar o inconveniente, pois como falei as subidas e algumas partes do percurso não estavam boas para pedalar. Havia muita sujeira na pista lateral, trechos com terra que eram perigosos, pois descíamos a mais de 70 km/h. Chegando ao PC3 encontro novamente com os 4 primeiros audaciosos, comendo e descansando. Falei com eles: “se vocês me esperarem 20 minutos vou com vocês para o PC4”. Prontamente responderam “pode vir, Paulo Carioca”, até aquele momento eu era um Randonneur desgarrado do comboio do Rio. Então depois de todos hidratados e alimentados rumamos ao PC4 (Km 267,2), no Posto Pedra Branca km 275 da Rodovia. Viemos juntos a maior parte do tempo num ritmo alucinante para aquela quilometragem já alcançada.  O pessoal pedalava muito forte, sorte que faço Mountain Bike com uns amigos que voam, como o Felipe Rosário (fininho) e o Christiano Goulart. 


Mas faltando uns 5 km para o PC comecei a ter dificuldades de passar as marchas na subida, falei a eles que daria uma pequena parada para ajustes e seguiria em frente, pois estávamos bem perto do PC4. Mesmo no escuro é só ir reto e entrar no km 275, menos de 5 minutos, nesta hora pensei “quem dera saber um pouco mais de mecânica” como o Osmar, meu mecânico do Renato Estrela. Tentei melhorar, mas foi em vão, tenho muito que aprender nesta arte, nota 5 pra mim. Placa de Km 276 à vista (estou chegando ao PC4, ufa!) Km 274, cadê o Km 275? Olho para um lado, olho para o outro e nada. Bom, vou subir. Entro em uma via sem acostamento e de terra na lateral... Acho que me perdi... De repente surge um motoqueiro e diz para voltar pelo acostamento de terra na contramão, pois o PC era do outro lado, no Posto Pedra Branca. Bom, nessa brincadeira de regulagem e desvio se foram 30 minutos. Quando cheguei ao PC4 todos estavam preocupados, pois disseram que eu estava a 1,5 km atrás deles e minha esposa estava ainda mais preocupada. Mas tudo bem, no final tudo deu certo, e cheguei sozinho, mas  são e salvo. O 1º grupo já estava se preparando para sair quando o Rogério, um dos organizadores do Audax me disse para ir com o curitibano que devia estar chegando em 20 minutos: “espera e vai com ele para não ir sozinho”. Prontamente disse que esperaria, até porque não é uma prova para ver quem chega primeiro e sim para completar no tempo pré estabelecido pela organização.  Aproveitei para descansar mais um pouco porque o ritmo foi alucinante desses caras nessas 14 horas de prova. Aproveitei para me hidratar e me alongar bastante pois as câimbras já estavam querendo aparecer mesmo tomando ”SUUM”. Meu corpo só estava acostumado a andar até 300 km, então começou a dar sinal de dor na lombar. Quando de repente chega meu audacioso Curitibano após 20 minutos. Falei para ele descansar um pouco que iríamos juntos para o PC 5. Rogério falou para irmos juntos, pois você anda bem. Após um bom descanso saímos às 21:30 do PC 4. Previsão de chegada ao PC5:  00:30.


Outra troca de roupa, agora o frio deveria chegar a 8 graus durante a madruga. Bastante agasalhados, descansados, hidratados e alimentados seguimos em frente. Começamos num ritmo FORTE, esses meus parceiros são muito bons e mantém uma média de 27 - 28km/h. Falamos em ver se conseguiríamos tirar o atraso, mas logo começamos a ver um mar de montanhas. E eu achei que iria ser plano: ledo engano. Aonde eu tinha descido a mais de 70km/h teria que subir essa parede de 3 a 4 km. Naquela altura já se foram 300 km pedalados e um frio de rachar com sensação térmica abaixo de 8 graus. Tinha que ser guerreiro para não desistir naquele momento e iria descobrir com o Curitibano que todos que haviam vindo comigo já tinham mais de 7000 km de pedal no currículo, coitado de mim que não tinha 2000 km sequer. Nesse momento tenho que dar a mão à palmatória quando o Walter falava que meu corpo tem que se acostumar aos poucos para entender melhor meu esforço. Ele tinha razão, nunca duvidei, mas sou tinhoso, às vezes até teimoso e tenho ciência disso. Mas ele também não é fácil comigo não, ralo muito com suas planilhas depois do treino com aqueles IRONMANS a 40 km/h,só esquentando. Uma vez nos treinos cheguei a 53 km/h, é radical andar do lado dessa galera. Nem o aprendiz ele alivia e agora tenho outro sofredor comigo o Alexander, que está mandando bem o garoto. Corpo todo moído no km 334,8 pelo desgaste das subidas e do frio cada vez maior. Chegamos ao PC 5 às 3:00 de domingo. Agora tinha que me alimentar muito bem e descansar mais um pouco para poder seguir em frente. Pelo menos 1:30 de cochilo seria a melhor maneira de recarregar a bateria para poder chegar inteiro ao PC 6. Minha esposa foi muito importante fazendo massagens nas pernas e na coluna, uma verdadeira companheira.
Nada como um Dorflex e um Cataflan gel para relaxar a musculatura durante uma hora de sono para recarregar as baterias. Meu amigo de Curitiba que veio comigo também estava um trapo, mas pedalava a mais tempo do que eu. Ele tinha como já disse, 8000 km na bagagem e eu pouco mais de 2000 km. Descansando muito, parecíamos Zumbis, todo mundo que passava no restaurante perguntava se estávamos passando mal, rs. Não, estamos pedalando 330 km desde ontem às 07:20 da manhã. Os motoqueiros diziam que somos loucos, pois nem de moto faziam isso. Nessa hora o Roger sentindo que a nossa pilha estava baixa, trouxe uma sopa de legumes para levantar a gente. Ele sabia que o percurso não estava fácil, pois pedalou 1000 km no Paris-Brest-Paris em 2007, e não completou a prova. Então ele sabe bem o que é isso. Uma pessoa realmente agradabilíssima que se preocupou sempre com todos os participantes neste evento. Apesar de alguns acidentes e algumas desistências naquela altura nada de mais grave havia acontecido com nossos randonneurs .Bom, depois desse paparico todo, sopinha, massagem e um bom sono voltemos para o percurso final rumo ao PC 6 Praça da Prefeitura no Km 412,3. Faltavam ainda 78 km. Agora que ia ser na raça e com muita superação. Vamos em frente, mas tivemos outra companhia para seguir conosco que já descansara lá fora: Oswaldo de Brasília um verdadeiro gentleman 10.000km de pedalada. Bom uma coisa eu sabia estava do lado dos melhores Randonneurs do Brasil. 


Saímos às 4:00 da manhã com previsão de chegada às 7:00,numa média de 26km/h. Começamos a pedalar num ritmo forte, pois sabíamos que os 50 km finais iam ser difíceis por causa das subidas muito longas. Então aproveitamos para rodar a perna ao máximo no início. Isso que eu chamo de Etnia Brasileira(RJ,BSB e PR) lado a lado. Conversávamos a maior parte do tempo quando era possível, mas também tínhamos que guardar energia para o final que prometia ser duro. De repente meu amigo curitibano começou num ritmo mais forte, falei ao Brasiliense para acompanhá-lo se quisesse e fique tranqüilo pois estou acostumado a pedalar sozinho. Ele disse que iria comigo, pois o convidamos para vir junto,quando estava sozinho, e não achava justo eu pedalar sozinho de jeito nenhum. Legal, tenho um amigo do meu lado, principiante como eu, era muito bom ter alguém experiente por perto. Então nosso amigo curitibano se distanciou uns 2km, quando meu pneu furou pela 1ª vez. Todo mundo já havia furado o pneu. Trocamos rápido, mas uma das câmeras deu problema no bico após encher, troquei novamente por outra, mas dessa vez usei o CO2 para encher o pneu. Perdemos 15 a 20 minutos nessa troca. Mais na frente foi a vez de furar o pneu do Oswaldo. A noite estava prometendo! Mais 15 minutos e continuamos em frente. Então seguimos a madrugada agora tranqüilos, mas o corpo já estava querendo dizer ‘não agüento mais’! Como um bom Baiano sou raçudo, enviava informação ao cérebro: vamos lá! rs
Mas quando faltavam 20 km, ligou o sinal vermelho: estou cansado, acho que vou parar. Mas aí me perguntava: se fiz 380 km e faltam só 31,2km porque desistir? Falei ao meu amigo Oswaldo tenho que tinha que alongar meu corpo, pois essa posição de speed estava muito incômoda. Ele me perguntou se eu não andava distâncias grandes com essa bike e eu disse que não, pois faço de mountain bike que é mais confortável e só giro menos. Então ele falou que era por isso o meu incômodo, já que são posições muito diferentes. Eu tenho que acostumar meu corpo com essa nova bike se não vou sentir mais ainda nos 600 km e 1000 km no Brasil. Nada como uma parada de 10 – 15 minutos para alongar e relaxar. 
Pois mais à frente estavam as subidas mais duras nos 20 km finais conforme o Roger havia me falado. Parecia ser proposital para desistirmos.Mas vamos em frente! No km 397 cada pedalada era uma eternidade e o sol já vinha nascendo. Não acreditava que estava pedalando pela 1ª vez perto das 24 hs, faltavam 40 minutos para completar 24 hs e 15km para o final. Só na raça mesmo para chegar ao km 116 da Rodovia, com 410 Kms rodados e ainda faltavam 2km para chegar na Praça da Prefeitura. Tive o prazer de ver minha mulher na chegada, guerreira como eu, além de ser minha sócia na empresa é uma parceira para todas as horas. Não podia esquecer do Roger, realmente uma pessoa incomum nos dias de hoje. Torceu por nós randonneurs o tempo todo. A felicidade era grande por ter conquistado mais este desafio na minha vida. Vinha de 4 provas consecutivas e pesadas como Big Biker, Montanha Cup, Trip Trail Campos e Lagos Cup. O corpo já sentia o cansaço. E pensar que 1 ano e 9 meses atrás eu nunca pensaria em pedalar quanto mais competir, só de falar ninguém acreditaria.


Agradeço a todas as pessoas que colaboraram nesse evento, especialmente ao Sr. Roger. Não é a toa que talvez seja o nosso melhor Randonneur Brasileiro. Deu-me todas as forças para desempenhar um papel de vencedor no Paris Brest Paris de 2011. Falando ainda para seguir  os conselhos de meu instrutor (Walter Tuche). Ele sabe o que faz e com certeza será um dos Brasileiros a cruzar a linha de chegada no PBP 2011. E estaremos juntos nessa odisséia se Deus quiser, retribuindo será um imenso prazer pedalar ao lado de vocês Randonneurs. Gostaria de comentar que foi um dos mais duros AUDAX do Brasil, segundo os participantes, pelas condições adversas que enfrentamos: frio, subidas intermináveis, de sobe e desce, estradas que requeriam muito cuidado pelo estado da pista em alguns trechos e tráfego pesado de caminhões.

Não podia deixar de agradecer a todas as pessoas que de algum modo contribuíram para que chegasse até aqui:
- Minha mulher: Sonia Antunes
-Meus amigos; Mário Braz, Christiano Goulart, Fininho, Carpes e Alexander.
- Walter Tuche: “Grande incentivador sempre ao meu lado”
- Rodrigo Tosta “Meu Personal”
-FECIERJ “Cláudio Santos”
-William Fabrício “Eventos Lagos CUP”
- Clube Audax Rio (Fiz 1400 km com eles: 4 brevets de 200 km e 2 de 300 km)
-Kraft Bikes e amigos da comunidade
-Dr. Mosa
Obs.: Com isso pude ver e aprender o quanto estou despreparado para encarar um Paris-Brest-Paris de 1287 km, preciso treinar muito e acostumar meu corpo a percursos longos em horários bem varáveis e temperaturas bem oscilantes durante o dia e a noite. Só assim poderei me inscrever sabendo que vou terminar esse grande desafio (PARIS-BREST-PARIS), 20/8/2011.

Um comentário:

  1. Incrivel seu relato e sua garra Paulo. Você esta de parabéns por mais essa conquista.
    Para mim foi muito bom ler seu relato, sou de Juiz de Fora - MG, e no ano que vem pretento participar das provas do Audax ai no Rio, e com o que vc escreveu, me passou uma boa noção do que vou enfrentar.
    Parabéns e obrigado por toda sua garra e perseverança, que me deixou ainda mais motivado.
    Abraço!

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