sábado, 28 de agosto de 2010

Relato do Claudio - Brevet 400 SP

BOITUVA, 21/08/2010, pela manhã.

Após Brevetar os 300 em 2009, terminando a série desse ano aqui no RJ, já tinha decidido que perseguiria essa etapa dos 400 no ano seguinte, em algum lugar. Comecei 2010 já com a meta de tentar a série completa, então já sabia que teria que ir para São Paulo, local mais acessível para mim, caso me saísse bem nas etapas anteriores aqui no Rio de Janeiro. A série dos três primeiros Brevets foram completadas, dois de 200, um no Rio e outro em Niterói/Saquarema (uma pedreira), e os 300 em Rio das Ostras (uma geladeira), pronto, já posso pensar nos 400, então vamos lá. Treinos rápidos e intensos durante a semana, e longas no final de semana, com objetivo de criar conforto em situações adversas, explorando nossas opções de treino aqui nas estradas do meu local, moro em Niterói, então a BR 101, passou a ser a “minha artéria “ principal no fluxo dos treinamentos. Fui para Boituva com dois amigos, o José Roberto que conheci no Audax Niterói/Saquarema de 2010, e o Maurício, que sempre nos encontrávamos nos Audax desde 2008. Tudo combinado partimos para nosso destino na sexta feira pela manhã, querendo ter tempo para fazer as coisas com calma.

Chegamos bem no Hotel em que ficamos, nos acomodamos, e fomos procurar comida, encontramos um bom “PF”, e depois começamos a preparar as Bikes para a prova, e esperar a PIZZARADA à noite, tradição dos atletas no estoque de energia, e que por sua vez, é uma delícia.
Para variar, acordo antes do despertador no Sábado, tudo em cima, vamos para o local da largada, o clima Audax é próprio, já ali na largada, a interação dos participantes já se mostra clara, atitudes bem descontraídas, conversando com alguns atletas, já podemos traçar o clima de expectativa de uma prova difícil, mas ao mesmo tempo, sempre existe a sensação de diversão nos Audax, característica que sempre encontrei nessas provas, e que  me incentivou a ter o prazer de poder estar alinhando para mais esse desafio.
Como é de costume, sempre tem o pelotão da fuga, eu costumo ficar na média, nem pra lá, nem pra cá, gosto de curtir a prova como se fosse um passeio, não uma competição contra o relógio, gosto de administrar o tempo para que tenhamos chance nos imprevistos, mas também poder admirar o caminho, e fotografar locais de interesse.

Quando vamos para uma longa distância, acho que o importante é a regularidade, e logo no início da prova, percebi que não a teria, pois entre o PC 1 e o PC 2, tive o meu primeiro furo, parei, troquei rápido, e segui em frente, chegando no PC 2 ainda com “folga “ na média geral, parei, e consertei logo a câmara, pois sentia que iria precisar,  vi naquela hora, que tinha escolhido errado os pneus para essa prova. Instalei os continental 700x25, mas, esses pneus furam demais, o composto é muito macio, então qualquer lixo, penetra e busca a câmara com uma facilidade incrível, eu deveria ter vindo com os pneus que estavam na bike, os Kenda 700x28, no qual fiz os 300 de Rio das Ostras e não furou nenhuma vez, são mais pesados eu sei, mas quase não furam, e percebi que iria ter falta de regularidade por furos, que começou a me assombrar ali mesmo no PC 2. Nessa fase da prova,  como resultado do ritmo natural dos ciclistas, o Jose Roberto já tinha se colocado no pelotão que vinha mais atrás, e o Maurício e eu, estávamos lado a lado nessa empreitada, então, saímos em busca do PC 3, local dos 50 % da prova. Chegando lá, vi alguns atletas deitados no chão, com as pernas pro ar, notei ali, que as coisas estavam difíceis para eles, mas por sua vez, acho que não estavam fáceis para ninguém. Conversando com um atleta que já tinha Brevetado uma prova por ali, ele me informou que na volta, a topografia da estrada iria se inverter, ao invés de brincar de tobogã descendo, iríamos subir, então, olhando para o planejamento geral, vi que estávamos na hora de partir, chamei meu parceiro, chegamos a conclusão que seria melhor já sair dali com a roupa de frio, então foi o que fizemos, só que o Maurício, deixou o corta vento no carro de uma pessoa pra pegar mais adiante, acho que ele se arrependeu disso, e para minha satisfação, levei tudo que precisava no novo acessório que instalei na bike, um bagageiro de canote,  foi show de roda. Quando estávamos prestes a sair, chega o José Roberto, foi logo pedindo uma câmara, pois a dele já era, como estava com sobra de câmaras, ainda bem que consertei aquela no PC 2, passei uma para ele, e indagamos se estava tudo bem, confirmado que sim, seguimos em perseguição ao PC 4.
Os furos continuavam,  já tinha furado duas vezes até ali, e a noite caiu, e o frio começou a dar as caras,  numa determinada hora, comecei a escutar um barulho na roda da frente, bem baixinho, mas, que naquela escuridão, e no silêncio da noite ( quando não passavam os “treminhões a mais de 100 ), já estava enchendo o saco, e reclamei com o Maurício, vamos dar uma parada para ver se encontramos o motivo, nada arrastando no quadro, o imã do ciclo ok, raios ok, pastilha de freio ok, não dava pra entender, e continuamos, e o barulho aumentando, paro de novo, nova checagem e nada, como o barulho não estava aonde nossos olhos enxergavam, na verdade parecia um sapo dentro do pneu, eu resolvi investigar aonde eles não viam, lembrei que estava com fita anti-furo, ironia né, com fita e furando tanto,  então ao mesmo tempo, notei que o pneu da frente já estava mole, hehe,  só rindo, mas de certa forma, foi bom, pois estava confirmando  que o problema estava vindo de dentro do pneu, parei arranquei tudo, câmara, fita, examinei o pneu e instalei câmara nova sem a fita, enchi, e partimos, ufa, nenhum barulho, rsrs.


Fora esses obstáculos, descobri pela primeira vez, meu maior “inimigo”, o sono, já por essas horas, os primeiros sinais, as pálpebras dos olhos pesaram, e imediatamente lembrei dos relatos que já li, dos atletas que já enfrentaram essa “pedreira “, como tentar ludibriar o sono, para que não apaguemos em cima da bike, e também, esperar o dia clarear, pois lembrava também que nos relatos, eles falavam que com a claridade o sono se afasta um pouco. Chegamos no PC 4, o pessoal da checagem perguntou, está tudo bem com vocês, noto que tem alguma coisa errada, pois vocês não estão na média de seus outros PCS, então pensei, elas parecem nossos anjos da guarda, e respondi, sim, a assombração dos furos está me perseguindo, fora o “sapo “ que tive que tirar de dentro do pneu, háaaa entendi, ainda bem, mas está tudo bem com vocês, sim, eu respondi, e olhava ao redor, tinha uns ciclistas no chão, parecia que tinham sido abatidos e não não se recuperariam mais, e incentivamos, “vamo lá rapa”, levanta, vamo nessa, e eles, vamo sim, mas podem ir, já vamos.
O Maurício enfim, conseguiu seu corta vento e partimos logo, sem demorar muito ali, e sabíamos que estava bem baixa a temperatura, mas, nossa previsão nos confortou com a decisão dos agasalhos que escolhemos, pois só senti frio mesmo, nas partes desprotegidas, como o rosto, os lábios, e as pontas dos dedos, que errei também em não trazer para a prova as luvas fechadas, deixei no hotel, hehe. E brigando cada vez mais com o sono, já estava parando praticamente de 20 em 20 minutos, para dar um “jeitinho “, até que o PC 5 chegou, fomos recebidos pela simpática fiscal, e o motociclista que estava de apoio, e foi ele que nos assustou quando de repente, antes de chegar no PC 4, encostou ao nosso lado de moto, eu pensei rápido, perdi, mas, o Maurício o reconheceu e me avisou que era o cara da organização, aí tudo bem. Lá no PC 5, tomamos uma deliciosa sopa bem quentinha, não perdendo tempo, partimos para o final. Foi quando o sono voltou, o Maurício estava na minha frente com a lanterna piscando, lembrei que isso hipnotiza o ciclista, então pedi para passar um pouco para trás para experimentar se dava certo, melhorou para mim e piorou para ele, pois parece que foi hipnotizado também, e começou a ter sono, e estava quase apagando na bike, e começamos a revezar, para espantar a assombração, até que clareou, para mim, foi como um balde de água fria, passou meu sono,  já o Maurício, brigou com ele até o final.
Até agora já tinham sido três trocas de câmaras, então, para não ficar por menos, antes de entrar em BOITUVA, notei meu pneu da frente estava esvaziando, tive esperança, vai dar pra chegar, pois não esvaziou tudo ainda, então imaginei que estava escapando aos poucos, enfim, chegamos, e quando fui examinar o pneu, era um grampo cravado, e que não saiu, assim, consegui completar esse desafio dentro do tempo limite, e com alguma folga, então, apesar das dificuldades, acho que foi um sucesso de prova, e os obstáculos estão ali, para serem derrubados.

Meus parabéns ao José Roberto Simas, que teve que abandonar por motivos mecânicos, mas que estava cumprindo todos os PCS, e com certeza, iria chegar dentro do tempo limite.

Meus agradecimentos a todos que de alguma forma, contribuíram para essa vitória.

Cláudio Guilherme

Um comentário:

  1. Acho que meu relato já não é tão necessário, uma vez que o Paulo e o Cláudio, grande companheiro desse e de outras provas do Audax já relataram a dureza que foi a prova.

    O principal recado que fica é que vale a pena escutar os relatos e antes de cada prova olhar com muito carinho o percurso, a altimetria e a previsão do tempo.

    Quando liguei na segunda feira para reservar o hotel o atende me disse: Se vocês vão varar a noite pedalando melhor se prepara para o frio, são 8:30 h da manhã e a temperatura é de 8ºC.

    Comentei com o Cláudio e tratei de providenciar, não só o corta vento que vinha procurando a 15 dias e não encontrava do meu tamanho, como uma roupa completa com isolamento térmico, não queria passar o pelo mesmo sofrimento que foi o Audax 300 em Rio das Ostras.

    Com o equipamento adequado a noite foi tranqüila para nós, porém outros Audaxiosos estavam a enfiar jornal por dentro da roupa para se esquentar ou abandonaram a prova devido ao frio. Faltou apenas a luva apropriada como o Cláudio já comentou, investimento aprovado.

    Sobre o sono vale lembrar que a prova não é uma corrida e que se você administra o tempo pode muito bem curtir o passeio como o Cláudio bem relatou como também tirar de trinta minutos à uma hora no meio da noite para um bom cochilo, evitando dormir em cima da bicicleta hehe. Vale lembra que essa parada deve ser programada para um PC ou um bom local com segurança.

    Finalmente vale a ultima lição, que apesar do pessoal da organização ter oferecido que poderia guardar uma bolsa com as roupas de frio para trocar no PC3, vale a máxima que o Rondoneiro deve ser independente e autônomo, tentar ao máximo não necessitar da ajuda de terceiro. Apesar de estarmos sempre prontos a ajudar um colega numa prova de Audax quem nunca passou por longos períodos de isolação durante um Audax?

    Quando entramos na Marechal Rondon pude compreender a altimetria que mais parecia um eletrocardiograma, cada subida e descida do gráfico se repetiam ali, com descidas confortáveis e subidas de inclinação que pareciam paredes a 90º. À noite os pontos mais baixos desses Tobogãs tinham uma massa de ar frio e quando chegávamos ali com velocidades acima dos 50 Kms por hora a sensação térmica era de -10ºC.

    Maurício Helman

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