segunda-feira, 21 de junho de 2010

Brevet 300 - Relato do Everton Jordão

Araponga (Vinícius), Grande Pássaro (Mario) e Everton.

Início do audax 300km. Thiago no carro madrinha e ... Início do audax 300km. Thiago no carro madrinha e alguns ciclistas maluc... quer dizer audaciosos atrás, ansiosos para começar a pedalar livremente - embora estivessem amarradões com os batedores fechando o trânsito para enfim os ciclistas receberem a preferência que tanto merecem - então surge uma pergunta: "qual é a sua estratégia para a prova?", respondi: "parar nos PC`s comer e seguir em frente", então veio o convite: "vamos seguir juntos então", respondi novamente: "beleza". Logo depois, a carruagem virou abóbora, os batedores ficaram para trás, assim como o escort bege, cinza ou coisa que valha - sou meio cego - também ficou para trás, e quem até então tinha a preferência passou a se espremer no acostamento escuro e até então lisinho e limpo. Puxando o crazy train - seja gentil, deixe eu chamar assim, afinal a brincadeira só é boa quando rola imaginação - eis que surge aquele ciclista franzino, não tão alto, com sua camisa laranja e a inscrição grande pássaro, pensei, porque será que esse cara fininho de estatura mediana é chamado de grande pássaro, e seguimos no pelote, em três, o terceiro era o Vinícius, ou Araponga, ou Arapa - vale o que vier a mente primeiro - esse eu já conhecia, por causa do blog "crônicas de bicicleta" - recomendo -, cara gente fina também, não demorou a surgir a resposta, o grande pássaro é chamado desta forma por causa da forma com que protege seus companheiros em suas asas enormes, protegendo - buraco aqui, buraco ali, quebra-mola - e assim, seguimos revezando os três na dianteira do pelote, até a estrada acabar e virar buracos, com pequenos trechos de asfalto. Estratégia seguida a risca, para, reload, alívio do peso morto (xixi), segue. Na estrada, quando os buracos permitiram, consegui observar o céu, salpicado de estrelas, cheguei a avistar uma que pensei cortar o céu, como uma cadente, achei melhor não comentar, poderia ser privação do sono, frio, vontade de chegar ao PC, ou qualquer outra daquelas coisas que se sente num AUDAX, eis que uma cratera tenta abater o grande pássaro, nessa hora, o pássaro que no ínício do pedal eu não achava tão grande assim, esticou toda a sua envergadura a minha frente a poucos metros - não sem antes tentar com todas as suas forças resistir ao tombo - consigo com habilidade que surgiu sabe Deus de onde desviar da rapina, que se levantou, testou suas asas, e após perguntarmos: "seguimos em frente ou retornamos ao último PC?" proclamou, seguiremos em frente.
Pensei, agora é melhor eu levar o pelote..., o Vinícius, inesgotável, acabara de completar o seu primeiro Ironman há apenas duas semanas antes, e suas luzes - mais elegantes que eficientes - não ajudavam muito naquela escuridão - o que não o impediu de puxar o pelo toda vez que a luz se fazia presente, sempre sob a ameaça de tomar uma barrinha de cereal na cabeça caso não diminuísse os seus quarenta e poucos por hora, inobstante não conseguir clipar uma das sapatilhas - mal acabei de pensar sobre puxar o pelote eis que surge a rapina com sua envergadura - se tornava cada vez maior - puxando o pelote, pensei mais uma vez, perdeu apenas algumas penas, e assim seguimos nos revezando honestamente, como combinado, no escuro eu a grande ave, nas luzes o ironman - quarto codinome - enfim chega o PC 5, então vemos aquelas figuraças gentilíssimas, Fininho e Renata, com o macarrão carinhoso e quentinho, com gostinho de comida de mãe, ou de avó, ou da esposa - marquei ponto com a patroa - e o cuidado que só quem é do pedal entende, não coloquei sequer a mão na caramanhola, nossos amigos as encheram, o carinho e a preocupação foi tamanha a ponto de surgir o conselho: "é melhor vocês irem", seguimos prontamente, quem avisou sabia o que estava fazendo (Renata), então todo o sofrimento imposto aos equipamentos começou a cobrar seu preço, dá-lhe de pneu furado, raio quebrado, o taco do Arapa já havia cobrado seu preço e assim seguimos, em determinado momento o pneu do Mario - a ave tem nome - furou em uma esquina, trocamos, atravessamos uma rua de uns 20m e então furou o do Arapa, não pude fazer outra coisa senão gargalhar. A grande ave que nos guiou por todo o trajeto sozinha - realmente um grande ave, fez toda a navegação - enfim começou a demonstrar sinais das avarias sofridas cerca de 100km antes - é km pra caramba - eu e o Ironman obviamente não abandonamos a rapina - rapina honesta, a única coisa que pilha são os kms e kms de asfalto ou de buracos - não por reconhecimento, ou por solidariedade, mas sim pela satisfação de seguir em frente com esssa grande ave! Valeu Thiago, Roberto, Renata, Fininho e todos os demais voluntários que não tive a educação de perguntar o nome, valeu todos os ciclistas (podemos nos declarar assim, merecemos respeito, muito!). Obrigado por compartilharem suas experiências, Araponga e Grande Pássaro, obrigado pelo gentil convite. Quando virem uma camisa laranja da granja, respeitem, os caras não são galinhas podres, são aves de respeito, voam alto mas também dão rasantes.

Everton Jordão

5 comentários:

  1. Parabéns a todos os Audaciosos e obrigado pela citação.

    Felipe (Fininho)

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  2. Paris/Brest/Paris/2011, mole pra estes caras. Parabéns para voces.

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  3. Valeu Sebastião!
    Grande abraço!
    Everton

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  4. Eu, que sempre fui uma Desafiante, sempre tive um certo temor em relaçoa ao pessoal "da Granja". Caras competitivos, que só vêem a chegada na frente, jamais vão ter a alma AUDAXciosa!! Qual o quê! Este relato me prova, que preconceito é feio, e que esses meninos podem até só enchergar a "chegada" como único objetivo, mas olham pro ciclista do lado como um companheiro, ou seja, têm alma SIM de AUDAXciosos! Parabém Equipe da Granja! Érica

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  5. Sim Érica, o ciclismo precisa de todos nós, gente que pedala, que passeia, que quer completar tal distância - jamais diria "apenas" completar tal distância - ou que quer fazer tal distância o mais rápido possível, mesmo que não seja o suficiente para ser o mais rápido de todos. O ciclismo precisa de gragários ou passistas, escaladores, velocistas, sprinters. O ciclismo precisa de voluntários, bons, mas o importante é que queremos apenas pedalar, tal qual pudéssemos mover o Mundo sob nossa roda, como se estivéssemos no rolo, invés de nos mover pelo Mundo.
    Forte abraço!
    Bom pedal!
    Parabéns a todos nós, ciclistas!
    Everton

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