domingo, 20 de junho de 2010

Brevet 300 - Relato do Eduardo Bernhardt

Quando me dei conta que tinha esquecido meus óculos de grau no ônibus, gelei. Rapidamente meu grande amigo Fabrício pegou o carro e corremos para o ponto final. O ônibus estava lá, se preparando para voltar ao Rio de Janeiro, mas não achei meus óculos. Alguém deve ter levado. Tranquilizado por amigos e esposa, decidi que faria a prova com os óculos escuros mesmo. Mais um pouco e uma grande idéia de minha super esposa: pedir ao Roberto da Pedal 2 para ir buscar o reserva lá em casa. Ele entraria com a chave reserva, escondida do lado de fora. E assim ele fez. Horas depois, na reunião técnica recebi o par reserva e estava novamente pronto pra encarar a jornada.
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Meu Brevet 300 começou emocionante e eu mal sabia que seria emoção do início ao fim. Rio das Ostras nos recebeu super bem, com apoio das pousadas à prefeitura. É realmente mais gostoso saber que pelo menos parte da cidade valoriza o evento e isso ajuda no otimismo dos atletas. Parti otimista, aproveitando a escolta pra colocar os pensamentos em ordem e obter a concentração necessária pra cumprir os 302 km dentro do tempo, mas sobretudo, para percorrê-los bem, chegando inteiro.
A experiência do ano anterior foi fundamental. Embora o trajeto tenha sido completamente diferente, na segunda vez a ansiedade é bem menor. Tivemos dificuldades sim. Vento contra e muita chuva gelada dominaram a noite, mas pra mim o mais marcante foi o espírito de solidariedade que marca essas provas. Eu pratiquei bastante.
Com poucos quilômetros Cezar Barbosa estava parado no acostamento. A corrente estava presa e bem presa. Com ajuda de umas três pessoas, incluindo a Guarda Municipal de Rio das Ostras, soltamos a dita cuja e ele pôde seguir. Pouco depois de Macaé, eu e Otoch nos deparamos com o Maurício parado: corrente partida. O conserto demorou muito, cerca de 40 minutos, mas ganhamos mais um parceiro de pedal. E em Carapebus nos juntamos à Ana e ao Clemar que nos ajudaram a não errar o caminho ali. Nós cinco seguimos juntos até o PC 4 e foi a melhor coisa que fizemos. Nos apoiamos mutuamente e como pessoal é pra lá de divertido, as horas em cima do selim passaram mais rápido e mais leves também.
Foram muitos quilômetros gritando 'buraaaaacooo' ou então 'falhaaaaa'. Cheguei a sentir dor de garganta. Normal, com aquele frio todo, até que me saí bem. Fomos os últimos por quase todo o percurso, mas mantínhamos um bom ritmo, suficiente para brevetar a prova.
O trecho mais sofrido foi entre os PCs 2 e 4. Frio, chuva e buracos nos maltataram. Ao chegar no PC 3 minha esposa me aguardava, como voluntária e isso foi fantástico. Ciclismo de longa distância na madruga e meu grande amor aguardando com beijinhos e abraços! Fora de série!
Mas aquele tufão contra na saída de Farol de São Tomé foi dureza. Ainda bem que eram as últimas horas de breu. Do PC 4 em diante a luz do dia aliviou as tensões, mas não aliviou o frio. Ali constatei que nossa média global era de 15 km/h e alertei todos pra acelerarem. Bem, eu acelerei e trouxe comigo o Maurício. A essa altura o Cezar Barbosa estava conosco também e éramos então os 6 últimos. Mantivemos bom ritmo até o PC 5, onde encontramos dois atletas dormindo, esgotados. Comemos, bebemos e partimos quando Otoch, Cezar, Ana e Clemar chegavam ao PC 5.
Os últimos 80 km é que foram intensos. O vento não parava e o Sol demorou a nos esquentar. Subidas se sucediam e um certo cansaço minava o ânimo. Lá pelas tantas um baque: o carro do PC 5 passou por nós com a bicicleta do Otoch em cima. Um pneu rasgado o tirou da prova. Lamentável, ele vinha bem, pra completar com folga. O Cezar nos alcançou e pouco depois o Maurício fugiu na frente. Em Macaé o pneu traseiro do Cezar furou duas vezes em 300 metros e perdemos um tempo precioso trocando câmaras. Pra piorar veio o trecho de acostamento em frangalhos e trânsito pesado. Comecei a pirar. Fazia contas de cabeça pra definir a média geral e o resultado era preocupante quando cruzado com o número no velocímetro. Não conseguia acelerar mais. O próximo ponto relevante na planilha era a ponte de Rio das Ostras que nunca chegava. Usei minhas últimas forças pra alcançar o final a tempo, mas o corpo e a mente estavam esgotados. Parei... exausto. Deitei na calçada e dormi de capacete e mochila de hidratação. Foram só 5 minutos, mas até sonhei. Acordei com o Thiago no celular me 'mandando' levantar e seguir pra Praça da Baleia. Assim o fiz e cheguei no último minuto! Meu Brevet teve um final dramático, mas muito feliz!
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O cuidado dos voluntários conosco é pra lá de emocionante. Chega a dar um nó na garganta só de lembrar. Eu sabia que era capaz de fazer, mas já não me resta dúvidas que o trabalho destes anjos da guarda é imprescindível pra que eu complete este longos desafios. No meu caso foi assim até o final, quando eu já tinha desistido da prova, mas eles não tinham desistido de mim. Muito obrigado!

Obrigado também aos companheiros Ana, Otoch, Cezar, Clemar e Maurício. São ótimos companheiros de pedal e amigos inesquecíveis dessa aventura.

Eduardo Bernhardt

8 comentários:

  1. Muito bacana! Uma prova emocionante.
    Parabéns, Edu!
    Abraço,
    Camila

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  2. Caramba, Edu
    Me emocionei com o seu relato.
    Fora de série!!
    Parabéns para todos!
    Abração
    Patrícia

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  3. oie Edu,

    Apenas hoje me dei conta que a mensagem que recebi no celular era sua!! Chuva? Frio? Vento contra? Pensei que era algum maluco que tinha desistido do Brevet da SAC e tava tendo um acesso de loucura!! hehehehehe...
    Como sempre, teu relato muito bem escrito, parece que a gente "pedala" nas tuas palvras!!
    E aí pronto pro 400?? Estamos esperando vcs!!

    bjinhos, ninki

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  4. Só para completar, os 2 exaustos que ele encontrou dormindo no PC 5 era eu (Guilherme Augusto) e o meu companheiro Julio Ribeiro. E por ali ficamos. Estávamos com um tempo bom, chegamos no PC5 2 horas antes dele fechar e usamos essas 2 horas para descansar. Mas o meu psicológico estava destruído, não dava para continuar. Eu só conseguia pensar em um banho quente e uma cama bem quentinha também. Não aguentava mais sentir tanto frio. As chuvas e os ventos da volta acabaram conosco.

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  5. edu compartilhar esta vitoria com vc e demais,apesar de todas as dificuldades,que a noite e a madrugada nos ofereceu,vc em momento nenhum fazia lembrar que estavamos ali no meio do tufão,ouvia todo tempo buraaaaco,faaaalha, faltam......km e assim seguiamos,dos 5 que estavam ali so eu de mulher,mas nao havia diferença pois o audax e isto ser forte ,audacioso,nao ter medo de nada ,¨nem de barata¨ hahahahha,para mim foi tudo novo um desafio verdadeiro,pois nunca tinha pedalado na escuridaõ ,mas em todo tempo senti confiança em todos do grupo, e assim seguia desbravando com a força de um touro ,jamais vou esquecer quando nossos pés ficaram dormentes de tanto frio, vc rapidamente colocou todos para marchar pela estrada escura,fria....,e seguimos falando besteiras para passar o tempo,nao vou esquecer jamais daquele banheiro feminino no meio do nada que vc me ofereceu,se ja tinha certeza que vc estava ligado em todos do grupo,mas naquele momento tive a certeza o quanto vc era humilde ,pois todos faziam pipi na estrada, mas eu nao,o frio era demais,ficava segurando o maximo,vc leu o meu o pensamento ,e falou:
    ana um banheiro feminino ,vai? minha esposa ia parar com certeza.edu vc e demais parabens e a todos que pedalaram juntos,foi um prazer muito grande,fiquei muito emocionada quando cheguei e tive a certeza que tinha completado,jamais vou esquecer.obrigado a todos,fiquem com deus.

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  6. Grande Edu !!!
    Mais uma vez quero te agradecer pelo grande aprendizado e exemplo que voce nos proporciona sempre, sendo antes, durante ou mesmo após as provas do Audax ... Desta vez estivemos juntos, e por muitos quilometros ditou um ritmo e nos sinalizou sobre as principais "atenções" desta prova que eu adoro !! VALEU !! Abraços. Clemar.

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  7. Ana, obrigada por colocar em palavras o que eu já senti tantas vezes, que este menino (o Edu) é um ANJO, que JAMAIS esquece quem está do lado dele. Toda vez que eu subo numa bicicleta, lembro dele e sigo (com o maior orgulho) todos os exemplos e lições que ele já me deu!!
    Grande Edu! Humilde Edu!! Companheiro Edu!!
    Parabéns Edu, por nos dar o apoio e coragem pra seguir nas AUDAXcias!!
    Beijos!
    Érica

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