sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Relato Eduardo Bernhardt - Brevet 200 km

Fiquei na dúvida se mandava a mensagem ou não, mas naquele momento, depois de tudo o que passei, era o mais sensato a fazer. Orgulhoso (mas nem tanto), investi uns minutos escolhendo as palavras, peguei o celular e digitei pra Carol: "Meu corpo desistiu. Te amo". Foi ele que desistiu, não eu. Eram 18:40 e eu estava no meio da Estrada do Joá, com cerca de 160 km de prova.

 Meu resgate foi quase imediato e envolveu umas 7 pessoas e 2 carros. Marquinho pedalou minha bicicleta até São Conrado. Carol Souza me levou de carro até lá. A Carol e a Inglid ficaram comigo pra tentarmos pegar um táxi. Mas nenhum leva bicicleta. Acabei sendo resgatado pelo Pedro Zöhrer e a Luciana, que vieram lá da Tijuca. Muito obrigado a todos! Foram meus anjos da guarda.

Não completei meu sétimo Audax. Tudo bem. Meu placar indica que completei 4 e abandonei 3. É que esse esporte é difícil mesmo, mas independente do resultado gosto muito de participar.
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              Pedalando feliz o grande Audax urbano do Rio de Janeiro. Foto: Thiago Silveira
Parece que foi ontem que me interessei pelo ciclismo de longa distância e liguei pro Pedro Zöhrer perguntando pelo calendário do Audax no Rio. Era final de 2006. Em março de 2007 me inscrevi e completei, em último, com mais 3 amigos, o Audax 200 Niterói-Saquarema-Niterói. No mesmo ano tentei o 300 em Campinas, mas o sol forte me derrubou. Parei no km 100.
Em 2008, por oportunidade e um certo devaneio me tornei organizador. Arrumei um Audax 200 dentro da cidade, porque se é pra meter o pé na jaca, que sejam logo os dois pés! Não pedalei nenhum Brevet nesse ano, mas voltei em 2009.
Ano passado é que foi bom. Organizei e brevetei as 3 provas do calendário carioca, sendo uma de 300 km. Até hoje não caiu a ficha de que fiz isso. Mas caiu a ficha de que o Audax Rio não ia avante sob minha direção e nem eu ia conseguir pedalar provas mais longas. Ou pelo menos tentar.

Aí que entrou o Thiago e tratou o Audax Rio como devia: com profissionalismo. Grande evolução, diria até imensa. Obviamente que eu não ficaria fora dessa e me inscrevi no 'Novo Audax Rio'! O entusiasmo com a prova e com o prestígio dos ciclistas me cegou pro fato de não ter treinado. Que erro mais tosco! hahahahaha

Acontece que gosto mesmo é do fascínio de sair de manhã pra pedalar 200 km e encontrar outros 60 caras indo fazer o mesmo. E na largada esse fascínio virou emoção. Pra ter uma idéia da emoção eu tava ouvindo o Thiago dar as últimas orientações e quando ele deu a largada vidrei naquela galera pedalando e gritando... aí me toquei que eu estava a pé e que a minha bicicleta estava encostada numa parede, lá longe! Corri para pegá-lar e acompanhar o grupo. Que bom que filmaram a largada, pois é algo que vou querer rever.
Conversava com um e com outro, nem sabia a que velocidade eu ia e só fui me concentrar lá no Largo do Machado.
Adoro subidas e nas paineiras eu me senti em casa, encontrei um bom ritmo quando vi um sujeito parado com a bicicleta virada. Ofereci ajuda e a tal corrente presa entre o cassete e a roda nos deu uma surra de meia hora. Mas no fim ela perdeu, foi consertada e continuamos. Só que aí foi o Raul, amigo de Porto Alegre, que teve um problema. Ele estava atrás de mim num minuto e no outro tinha sumido. Parei e esperei, mas como ele não vinha desci 300 metros atrás dele. Roda empenada e freio travando. Aliviei rápido o freio dele e seguimos, pedalando muito e suando o dobro.
Continuei batendo papo com amigos nas Paineiras e no PC 1, mas dali em diante decidi que estava na hora de falar sério e fiz rápido o trecho entre o PC 1 e a Barra. A Niemeyer foi a última avenida em que pedalei acompanhado. Fui sozinho o resto do dia.
O PC 2 era um oásis, daquele que não se quer sair. Principalmente porque a Carol estava nele de voluntária!
Continuei, mas já sentia a pulga atrás da orelha. O cansaço era muito grande. Só o calor atingia um patamar mais alto que o cansaço. Dali em diante comecei a me arrastar e assim fui por todo o trecho. Parei várias vezes nas sombras e joguei duas garrafas de água mineral na cabeça. Nessas horas dava uma esperança de brevetar.
Pra chegar no PC 3 fiz mais esforço do que podia e já encostava no limite do horário.
A Kombi da Amazonas passou por mim na Salvador Allende. Perguntaram se estava tudo bem e eu disse que sim. Que mentira! Já não comia nada e até a água descia quadrada. Eu tava na merda! hahahaha
O horário era crítico no PC 3 e lá tinha uns 3 caras abandonando... mas eu queria continuar... Até onde desse. Ou até onde o vento contra deixasse um cara já fraco, desidratado e mal treinado insistir nessa prova de superação, também conhecida como insanidade, mas muito divertida.
Vale a pena continuar? Seria loucura? Estava na cara que seria dificílimo brevetar. O tempo não para. Eu abaixava a cabeça, cansado, pra tentar evitar o vento frontal. E aí eu 'vi' algo muito importante: minha bicicleta. Companheira fantástica, eficiente, confortável e, pra mim, inquebrantável. Vi e soube que muitos ciclistas tiveram problemas mecânicos, alguns com bicicletas bem melhores (e mais caras) que a minha. Ela não teve nada e olha que foi maltratada, pois vinha do Brevet 200 km de Porto Alegre e me acompanhou aqui no Rio sem revisão nem limpeza. Mesmo assim continuava me levando, impassível, me ajudando a manter uma média decente. Nossa ligação é enorme, foram muitas viagens e aventuras, e ela nunca 'reclamou' ou quebrou. Conclui que o barato seria curtir mais uma pedalada com minha máquina maravilhosa, até onde a curtição valesse a pena.
A diversão ainda durou até o Joá. E foi fantástico! Eu me sentia muito feliz, mas quando o cansaço começou a tirar o colorido do dia preferi parar por ali mesmo. Eu tinha pedalado 173 km naquele dia (13 km de casa até a largada). Nada mal. Nada mal mesmo.

O brevet? O brevet fica pra outra... ou não. Não importa.
Mas a emoção da largada, a curtição da pedalada, a satisfação pela longa jornada e aquele estado de espírito indescritível que só as grandes aventuras podem proporcionar... estes estarão lá.
Nos vemos na próxima!
Força no pedal.

Edu

12 comentários:

  1. Edu,

    Nem parece aquele guerreiro de 33 anos que pedalou os 300 Km comigo!

    Sei que o sol minou a resistência de todos nesse Audax. No de 300 Km, quando o Sol bateu, sua resistência estava maior que a minha. Só fechei porque você me esperou e porque sabia que não teria socorro ali na estrada.

    No próximo estamos juntos, dando força para brevetar.

    Grande abraço !

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  2. Valeu Edu !!! Quero que saiba que vc é uma referência para mim no Audax, pela sua conduta, suas orientações e dedicação nos brevets que participei !!! Após algumas provas assim, começamos a perceber o que realmente é importante dentro de um desafio como este. Tenho aprendido com elas, e com amigos que venho fazendo ao longo do "percurso" ... Um Forte Abraço !!!

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  3. Como não me emocionar!?!
    Não existe um só momento que estando em uma bicicleta eu não lembre dos seus conselhos, de TODOS!!
    Vou repetir aqui o que já escrevi em off:
    Edu, você é O EXEMPLO pra quem tem paixão por pedal!!! Pra mim, você é muito mais do que isso, é um exemplo de vida!!
    Obrigada "irmão"!!
    Érica

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  4. Marcos Nicolaiewsky29 de janeiro de 2010 00:56

    Cara, lindo relato. Gostaria de deixar registrado que foi uma honra guiar a sua guerreira do Joá à São Conrado. Realmente você é uma super "expiração". Se hoje em dia pedalo com tanto afinco é porque nos nossos encontros ocasionais, lá pela Pinheiro Machado, você sempre me inspirava a continuar na luta, no pedal, na vida. Um grande abraço e até sempre.

    PS: E a 200km em março, quero chegar no fim junto contigo!!!

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  5. Emocionante relato; meus olhos marejaram... Quase pude sentir o cansaço, o calor, o asfalto, o vento contra...
    Parabéns, você merece.

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  6. Edu, você já é um vencedor só de pensar em pedalar 200km num dia...
    Parabéns!

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  7. Edu,

    Só graças a vc eu experimentei dessa "droga" de Audax e tb com seu apoio que terminei o meu primeiro e por hora único brevet.. 100% ;)

    Espero estar junto no próximo! Aí vamos até os 400! ehehehe

    abs

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  8. Edu!!! Muito emocionante seu relato!!!

    Eu, que não sou muito fã destas aventuras desde aquela volta na Baía da Guanabara destruidora, quero te parabenizar pela prova! Nada de superação (que também não é minha praia hehe)e sim uma grande conquista!

    Saiba que minha admiração pela escolha ciclística de vocês dois é imensa!

    Espero poder comemorar em breve com um pedal na "nova velha bici", mas por favor, sem superação demais rsrsrs.

    Ju

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  9. Edu, digo, Bernie, eu daqui de Vitória fiquei torcendo só de ler seu relato...boas pedaladas! Voce é muito generoso!
    Déa

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  10. Meu filho. Como sempre teus relatos são emocionantes e muito bem descritos. Gosto de saber que fazes o que gostas. Realmente as pedaladas que tens feito, são um desafio a qualquer um que tente pedalar nesse clima. Fiquei orgulhoso de tua capacidade de desistir inteligentemente, pois insistir podería ter problemas de saúde. Bravo filho, vá em frente.
    Beijo do pai.

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  11. Duardo meu querido Amigo,assim como Carol,L.Travassos voces são amigos recentes que TENHO UM ENORME ORGULHO de dizer da admiração pessoal e profissional que tenho por oces .Duardo voce é um guri medonho que tenho muito respeito e Admiração vai fundo ,um dia ainda pego a minha bicicleta que me acompanhou por muitos anos na nossa gloriosa U.F.Rural.R.J.Esta bicicleta tem história...Um dia ficaras sabendo...,abraços,Luís Henrique.

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  12. Eduardo,
    Embora nunca tenha tido o prazer de pedalar com você, aguardo muito esse dia. Parabéns pela coragem de parar e pelo lindo relato.
    Renato, Nívea e Dudu o seu chara.

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