quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Relato do Alan Marra - Brevet 200 km


                 Alan na chegada do Brevet 200. Foto: Cezar Barbosa

             Desde 2007 quando tomei conhecimento do Audax que venho flertando com ele. Naquele ano, parti de Itacoatiara com mais 3 amigos em direção à Saquarema. Não estávamos inscritos e sabíamos que não teríamos condições de completar a prova, mas estávamos lá para pedalar... Foi a 1a vez que pedalei uma distância como aquela. Chegamos em Saquá mortos e um ônibus nos trouxe de volta. Pronto, definitivamente os longos pedais "entraram" no sangue e na mente.
              Os anos de 2008 e 2009 não me permitiram participar de nenhum Audax, pratiquei pouco montanhismo, engordei, minha pressão subiu... Porém, no fim de 2009 ajudei a organizar um evento sobre cicloturismo e fiz mais um amigo: Edu Bernhardt. Por ele, soube desse Audax 200km em janeiro. O primeiro pensamento foi: "Esquece Alan, você está igual a uma roda de bike, ou pensando melhor, uma Skol: REDONDO". Houve mais pressão de outro amigo, o Leandro Pestana, grande companheiro de bike e de montanhas, o que significa companheiro de "perrengues"!
              Nós montanhistas temos um lema que diz: "escalada só se desmarca na base". Portanto, não podia desistir de véspera de um desafio de ciclismo, no qual meu único adversário era eu mesmo. Quinze dias antes da data fechei a boca, intensifiquei minha natação. Reduzi um pouco o peso, mas nada demais. Na semana da prova fiz dois pedais de 20km cada... Isso mesmo, VINTE km cada... Pronto, me sentia preparado, pois segundo o próprio Edu, "o Audax é 30% físico e 70% psicológico". Meu treino era falho, eu sabia, mas confiava no "psicológico", já tanto testado nas montanhas.
              Devido à ansiedade, quase não dormi na noite anterior, tendo apenas 3h de sono... A minha esposa até falou: "Vai ficar rodando na cama a noite inteira, é?". Detalhe, ela também acordaria às 4h da madrugada para ser voluntária nesse Audax. Às 5:30 chegamos ao local da largada. Pronto, era chegada a hora. Parti com alguns ciclistas desconhecidos na rabeira do pelotão. O corpo se adaptando à bike, a mente projetando o caminho a percorrer, imaginando como seria chegar ao final... Ou melhor, em que estado chegaria ao final, se chegasse, claro.
              Subimos a Rua Alice em direção às Paineiras e foi mais tranquila que pensava. Já tinha ouvido relatos sombrios dessa subida e imaginava que a subida até as Paineiras seria o pior do trajeto... Ledo engano, pois o pior estava por vir...
              Uma parada nas duchas das Paineiras para refrescar e logo em seguida PC1. Banana, guaraná natural, água. Rumo ao PC2 via Vista Chinesa, uma subidinha leve, na sombra, deliciosa. Nesse ponto, para mim, aconteceu um dos fatos mais marcantes desse Audax. Uma jovem senhora empurrando a bicicleta e apertando sua buzina para alertar os amigos que não a escutaram. Ela estava cabisbaixa, um pouco triste. Perguntei se estava precisando de ajuda e ela me respondeu que sim, pois o pneu traseiro dela havia furado e ela se distanciou do seu grupo. Ela tinha câmara reserva, apenas uma palheta (é necessário no mínimo duas para uma boa troca), não sabia trocar o pneu e também não tinha bomba. Devia estar imaginando o fim do desafio. Parei e ajudei-a. Ao terminar a troca e verificar que estava tudo bem com a roda e freios seguimos juntos conversando. Eu via nos olhos e no sorriso dela o retorno na esperança de concluir o desafio de 100km que estava inscrita. No fundo eu torcia por isso, pois com o pouco que conversamos ela se mostrou uma pessoa humilde e de bom coração. Merecia terminar, independente da hora. Ela já passou por uma cirurgia no joelho que a impede de correr (sua paixão), tem uma situação financeira difícil que a impede de se tratar adequadamente e ainda assim apresentava uma vontade imensa de pedalar 100km nas ruas do Rio... "Vitoriosa desde já", pensei comigo. Abaixei os olhos, observei a roda girando... Ou seria o mundo?
              Seguimos juntos por todo o restante da Estrada da Vista Chinesa, quase "beijamos" a lateral de um carro que manobrava em frente à Cachoeiras dos Macacos, pois descíamos voados para recuperar o tempo perdido. Fomos juntos até a Niemeyer, conversando sempre que o trânsito permitia. A partir daqui tive que acelerar para chegar a tempo no PC2. Felizmente havia outro ciclista do Desafio 100km nesse ponto e provavelmente eles seguiram juntos, mas não sei dizer... Infelizmente não pude pedalar por mais tempo com eles.
              Chegando à Barra ainda peguei a ciclovia vazia. Tranquilo e rapidamente cheguei ao PC2, no Recreio. Lanche rápido, descanso de quinze minutos, fraternidade entre os voluntários... Me enturmei com mais cinco ciclistas e partimos. Nesse trecho entre os PC's 2 e 3 do Audax, provavelmente seria o ponto mais "fácil" para desistir, pois eu passaria quatro vezes próximo de minha casa...
              Aqui aconteceu o segundo momento importante do desafio. Em uma das bifurcações, ao berrar para alertar uma ciclista que insistia em usar fones de ouvido, pedalava rápido e que não havia estudado o trajeto (era o segundo erro de trajeto dela em menos de 3 km depois do PC2 que presenciei), minha mão molhada escorregou do bar-end, acertei o antebraço no guidão, a coxa no quadro e quase caí. Por sorte os pés saíram do pedal e me seguraram. Nada grave, a não ser a dor e um "aviso" do que poderia acontecer se estivesse desatento devido ao cansaço. Felizmente essas ciclistas se distanciaram...
              Uns 3km à frente, 20m antes de um ponto de ônibus escuto o barulho de um deles chegando perto, olho para o lado e já estava sendo ultrapassado. Olho para frente e vejo um passageiro fazendo sinal... Pensamento óbvio: "Fudeu!!! E agora?" Rapidamente desviei para passar por trás do ponto de ônibus, mas estava a uns 25km, numa curva fechada, de pneu liso e tinha areia como piso... Resultado: chão!!! Dei uma bela ralada na batata da perna (7cm de diâmetro), ficando em carne viva, daquelas bem esbranquiçadas... Como a adrenalina e a endorfina estavam à mil no sangue, quase não senti dor, apenas uma ardência devido ao suor. O Otoch que vinha logo atrás com a sua reclinada e assistiu a tudo de camarote, parou e me perguntou algo do tipo: "Está tudo bem?", eu respondi que sim, mas ele viu o tamanho do machucado e me fez a pergunta crucial: "Vai parar?". Numa fração de segundo, passei a mão protegida com a (santa) luva e cheia de poeira por cima da ferida, olhei o entorno do bairro (estava há apenas quatro quadras de casa!), olhei o ciclocomputador marcando 85 km e respondi: "Não! Vou continuar.". A partir desse ponto estava claro para mim: não seria de graça e parte dos meus pagamentos já começavam a ser debitados. Dali para frente eu e Otoch seguimos todo o trajeto juntos, eu com meu machucado e ele com seu raio quebrado e roda empenada (um raio traseiro dele estourou logo no primeiro km da pedalada, e ele seguiu mais 199 km assim).
              E como tudo que está ruim ainda pode piorar um pouco mais, o calor que emanava do asfalto da Av. das Américas era algo em torno de 60 graus Celsius. Sem sacanagem, eu me sentia pedalando numa chapa de hamburguer!!! Imaginava a hora que o pneu explodiria... Foi o pior intervalo entre PC's. Suportamos a dor, as câimbras rondando os músculos das pernas e costas, a insegurança de uma roda bamba em locais ermos, o insuportável calor, os infinitos buracos da região de Vargem Grande... Enfim, PC 3. O desgaste era tamanho que não descia nada. Só água, e mesmo assim pouca, pois o estomâgo não cabia mais de tanto que bebi para diminuir o calor. Com muito sacrifício comi alguns pedaços de melancia gelada, molhei o corpo com gelo do isopor de água do PC, o pessoal da ambulância de apoio fez uma assepsia na perna e descansei não mais que 15 minutos. A Claudia, minha esposa, chega perto me olhando com pena do meu estado geral e pergunta: "Vai parar?". A resposta foi a mesma que dei para o Otoch 80 km atrás e complementei: "Já vim até aqui, mais de 140km pedalados, falta pouco mais de 50km. Quando eu chegar no final, te ligarei para colocar as cervejas no congelador e comemorarmos!"
              Saí do PC 3 achando que o que faltava era moleza, Barra-Centro-Tijuca, via orla. Afinal, 3/4 da prova já tinham sido feitos e faltava pouco. Lembra da frase que dizia que podia piorar um pouco mais? Pois é, piorou. Um forte vento contra, vindo do leste não deixava a velocidade passar de 17km/h na ciclovia da orla. Cézar, Otoch e eu chegamos no início da Barra exaustos e tomamos um Redbull (quem sabe ele não nos daria asas?) para subir a última grande subida do dia, a Estrada do Joá. Não consegui subir tudo. Empurrando a bike fazia 6 km/h, pedalando 4 ou 5 km/h, escolhi empurrar. No topo estava o Cézar com a máquina na mão flagrando a "derrota". Agradeci pela espera e partimos rumo ao PC4 no Mirante do Leblon. Chegamos com o tempo quase estourado. Mais guaraná natural (argh! já não aguentava mais o gosto), pois a água tinha acabado.
              Voamos e berramos ao longo de toda a ciclovia, tirando os pedestres que insistem em flanar por ali. Perdemos o PC5 da Lapa, mas teríamos o brevet se completássemos dentro do tempo. Faltava pouco mais de meia hora para o encerramento da chegada. O Cézar já tinha disparado, o Otoch estava exaurido, eu também, então virei para ele e disse: "Vou puxar, falta muito pouco.", ele me responde: "Manda ver que te acompanho.". Partimos tirando forças não sei de onde, em frente à praça Afonso Pena, na Tijuca, pergunto a hora à uma senhora que caminhava: 19:20. Horário limite: 19:40. Vinte  minutos nos separava do fim, pensei comigo mesmo: "Calma, atenção, não faça besteira. Você vai completar".
              Chegamos na Praça Saens Peña e o Otoch disse: "Estamos com a mão na taça!!!"; eu respondi: "Falta apenas duas esquinas.". Por fim chegamos faltando apenas 5 minutos para estourar o tempo... 13h 25min de tempo total. O pessoal da ponto de chegada nos cumprimentou, trocamos apertos de mão e cumprimentos. Uma das meninas do PC (não sei o nome dela) me trouxe uma medalha, colocou no meu pescoço, abriu um sorriso e disse: "Parabéns!". Eu agradeci e fiquei pensando que esse gesto dela com todos os "audaxiosos" sintetizava todos os apoios, todas as forças, todo o companheirismo que essa prova reúne, tanto entre os ciclistas quanto com o pessoal de apoio. Deixo meu muito obrigado a todos os voluntários.
              Havia terminado. Quase inacreditável! Mal consegui assinar meu nome na ficha dos horários. Cumprimentei mais uma vez meu companheiro de duros quilômetros, parabenizei-o pelo feito. Ele retribuiu. Minha ficha ainda não tinha caído. Liguei para casa e mais festa ao telefone. A cerveja e a esposa já me aguardavam. Eu estava são, vivo e salvo.
              Se bem que sanidade não combina com Audax...
              Alan Marra
PS: Na chegada não conseguia lembrar o nome da senhora que ajudei, meus neurônios não estavam em bem. Tinha dúvidas se ela teria conseguido terminar. Para minha surpresa, ao ler o blog hoje (20/01) vi seu nome lá: Calmira. Parabéns Calmira!! Você é uma guerreira!! Obrigado por partilhar comigo em alguns quilômetros a sua simplicidade.

3 comentários:

  1. Caro Alan Marra, que de marrento não tem nada! Suas palavras me emocionaram. Ser um audacioso é mais que completar uma prova longa, é completar sem deixar ninguém para trás sem socorro. Parabéns!
    Espero te conheccer no 300 em junho. Treine mais, acabar inteiro tb é um grande barato!
    Abraços!
    Everton Jordão

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  2. alan primeiramente parabens pela sua vitoria,apesar das dificuldades e acidentes,um deles causado por mim ,como relatou qd tentou me avisar e eu nao ouvi,peço desculpas, jamais como ciclista de muitos anos e ser humano do bem nao faço e nunca fiz mal a ninguem ,eu errar o trajeto nao significa qu nao conheço o caminho pois 3 vezes por semana saio da freguesia vou ate vargem grande,prainha e volto sem transtorno nenhum,nao so pedalo mtb mas tambem de speed, ja fiz 2 audax com ela mas de mtb e mais confortavel,acredito que foi em um dos momentos de stres seu que vc deu graças a deus quando eu sumi ,que vc diz felizmente elas sumiram , minha amiga nao e amadora e maratonista a mt tempo ,nosso espirito desportivo faz parte da nossa vida
    se nossa presença foi ruim em pequenos kms para vc td bem milhoes de desculpas, mas nao me sinto culpada ate compreendo,mas esta turma que esta na foto ai comigo na lapa no meu depoimento pedalamos a maior parte juntos,desde ja quero te dizer que estarei pronta para te ajudar se vc quiser e precisar em outros audax ate trocar pneu um abraço
    ana moraes

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  3. Boa tarde Ana.
    Também te parabenizo pelo feito! Não é para qualquer um.

    Ao fazer o relato, meu objetivo foi passar o que SENTI na hora da prova, e todos nós estamos sujeitos a sentimentos "menores", em relação a quem quer que seja, inclusive familiares.

    Raiva, gana, apreensão, distração, raça são sentimentos que botamos para fora principalmente em cima de uma bike, ainda mais nas condições adversas que estávamos. Pura pressão psicológica. Lembro até que vc mencionou que não há terapia melhor do que pedalar, quando estávamos no PC. O fato de agradecer o distanciamento de vcs teve 2 motivos:
    - 1o Eu não tenho fôlego para acompanhá-las.
    - 2o Eu estaria mais concentrado na minha pedadala, e ainda assim caí novamente.

    Não culpo você pelo MEU descuido, pois sei das dificuldades que é fazer esporte nessa cidade esburacada. Ainda mais na região que moramos (moro no Recreio e sempre pedalo por aquelas bandas).

    Não há mágoas, nem ressentimentos e também não há por que se desculpar. Poderia ter sido o inverso. Também pode contar comigo, caso precise de ajuda em outros Audax.
    Outro abraço
    Alan Marra

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